Politicando

Os mosquitos viajantes


| Tempo de leitura: 1 min

As duas cidades mantinham historicamente constante clima de rivalidade. Numa e noutra tudo o que acontecia de bom era motivo de orgulho (nós temos, eles não!) e o que ocorria de ruim vinha de outra ou tinha alguma coisa a ver com ela.

Esse clima competitivo entre as duas cidades não comportava exceção. Desde o futebol até a classificação de estudantes nos exames vestibulares, tudo constituía motivo de comparação, animosidade e gozações.

E como tudo isso sempre rendia votos, era muito comum que as tribunas das respectivas Câmaras Municipais se prestassem como caixa de ressonância, pela voz de entusiasmados vereadores.

Então, num verão muito quente (calor quase senegalesco), numa das cidades alastrou-se formidável infestação de mosquitos e, logo logo, se conclui que o matadouro da cidade rival era seu principal foco.

E o vereador, da tribuna, bradava contra a cidade que exportava os mosquitos e exigia adoção de providências urgentes, posto que o povo já não suportava mais conviver com mosquitos, mosquitos, mais e mais mosquitos. Um verdadeiro terror.

Outro vereador, mais ponderado, lança aparte e argumenta que, segundo constatação científica, os mosquitos pouco se afastam de seus criadouros, no máximo dois ou três quilômetros e não tinha sentido científico dizer que os mosquitos, entre as duas cidades, viajavam cerca de quarenta e três quilômetros.

A resposta foi imediata e contundente.

- A ciência nunca é muito exata, principalmente com seres vivos. Os mosquitos são de lá, sim! Vão chegando devagarinho, parando de quando em quando, pernoitando pelo caminho, mas vão chegando e não param de chegar, para atormentar a vida de nosso povo. Disso tenho certeza! Eles vêm de lá, sim senhor! Não tenho dúvida.

Contada por José Fernando da Silva Lopes

Comentários

Comentários