Novamente é Natal. A Liturgia da Igreja vai reviver o que aconteceu há 2 mil anos na pequenina Belém da antiga Palestina. “E tu Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as cidades de Judá”... e do mundo inteiro, pois de ti saiu o Salvador! (Mt 2, 6).
Entre as páginas da história de nossa vida e da história da humanidade aparece, como escreveu o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony, “a página sem igual e mais original da literatura de todos os tempos”: o mistério de Deus se fez criança.
Uma página escrita pelo próprio Deus juntamente com um casal de jovens. Ela se chama Maria, a “cheia de graça” que concebeu em seu ventre o Salvador por obra do Espírito de Deus; ele se chama José, “homem justo”, esposo de Maria. (Lc 1, 28 e Mt 1, 19)
É preciso ter a simplicidade e a humildade das crianças para contemplar, perceber e sentir o mistério do Menino Deus nascido de Maria e que tem como berço uma manjedoura. Somente quem tem maldade no coração não entenderá a linguagem dessa página maravilhosa escrita e assinada por Deus, por Maria e José. “O Logos, o Filho de Deus, se fez carne e levantou sua morada no meio de nós”, exclama emocionado o evangelista São João. (Jo 1, 14)
“Ele será chamado Emanuel, que significa: Deus conosco”! (Mt 1, 23) Sendo Deus, Ele se dignou tornar-se nosso Irmão, como o mais forte apelo para que vivamos a fraternidade. Ele se identificou conosco em tudo, exceto no pecado, vivendo nossa realidade existencial humana, com seus trabalhos e cansaços, alegrias e tristezas, lágrimas e angústias. O Menino cresceu “em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens” (Lc2,52), tornou-se jovem e, sem alarde, lançou as sementes da fraternidade universal, do amor-solidariedade, da liberdade, da justiça e da paz, como elementos essenciais de toda sua pregação aqui na terra. São sementes impregnadas de esperança e que possuem latente a força salutar de germinar e frutificar em ações e atitudes pessoais, familiares e sociais capazes de tornar o mundo melhor.
Ele incomodou as elites religiosas e políticas dominantes de seu tempo. Sua palavra trazia o fermento de transformações radicais e profundas, subvertia injustas situações sociais e falsos valores religiosos. Como conseqüência de sua pregação e do seu agir, o jovem Jesus foi rejeitado e condenado à humilhante pena de morte da cruz.
Sendo Deus, o jovem venceu a morte porque ressuscitou. Encarnação, paixão dolorosa, morte e ressurreição do Senhor se conjugam e se entrelaçam, constituindo-se no núcleo central do Cristianismo e da obra redentora e salvadora da humanidade.
O Menino do Natal tornou-se o centro e a referência da humanidade e da história.
Conscientemente, ninguém pode permanecer indiferente diante Dele. Em peregrinação espiritual, vamos a Belém reviver o mistério do Deus que se encarnou e se fez criança por nosso amor, sem nos esquecermos que o Menino cresceu e deu a vida por nosso amor. “Ele nos amou até o fim”! (Jo 13, 1) Ressuscitou e está no meio de nós! Estamos envoltos no amor! Haverá modo melhor de celebrar e vivenciar o Natal, do que corresponder a tanto amor, tudo fazendo para que nossa vida se torne um gesto generoso, crescente e permanente de amor a Deus e aos irmãos? (O autor é o frei Lourenço Maria Papin)