Não é nem um pouco difícil comprovar a tese de que o poder vicia, que é uma cachaça. E deste vício só os estadistas permanecem imunes. Ainda outro dia, li um respeitável colunista do Jornal O Estado de S. Paulo dizer, com todas as letras, que Luiz Inácio da Silva é um estadista, bem como FHC.
Primeiro foi José Sarney, este grande político brasileiro, que tanto fez pelo país quando o presidiu. Tanto fez que conseguiu a extensão de seu, digamos, mandato para cinco anos.
Perdoe o leitor se pareço irônico, mas o mandato era de Tancredo Neves.
Em seguida, FHC - Fernando Henrique Cardoso, para os demais leitores lusófonos -, conseguiu aprovar a emenda da reeleição e ficou no poder por oito longos anos, o que talvez tenha causado fadiga de material, pois começou bem com seu Plano Real.
Seja lá como for, os oito anos de FHC se deram sob uma democracia de fato, jamais se tentou calar ou censurar a imprensa, o que já não se pode dizer do atual presidente, Luiz Inácio.
Agora, o plano parece ser o seguinte: dando como favas contadas sua reeleição, Luiz Inácio, para não causar alarde, nem enfurecer a oposição - que nem lhe é tão feroz assim - diz que o projeto dos seis anos é só para 2010. Ora, é exatamente em 2010 que termina o seu eventual segundo mandato. Assim, ele ficaria dez anos segurando as rédeas do Brasil. Nada mal para quem contava com apenas quatro.
Dizem seus defensores que quatro anos são pouco para se fazer tudo o que se impõe para mudar o Brasil, e estão cobertíssimos de razão. Para modificar este País são necessários não quatro anos, tampouco dez, mas várias gerações.
Se o companheiro houver feito uma boa administração, certamente será mantido no cargo; caso contrário, deverá entregar o bastão.
Imagine o leitor um governo que puniu os dois policiais federais que ousaram prender Duda Mendonça, o assessor especial, ou algo que o valha, do presidente da República, só porque ele maltratava animais, numa rinha de galo, seu declarado “passatempo” favorito. Os dois agentes, que eram os mais experientes da equipe, foram transferidos para Campos dos Goytacazes-RJ e Macaé-RJ. Já o delegado que presidiu o inquérito sobre o senhor (ou doutor?) Mendonça, foi “afastado”.
Bela lição de isenção e justiça de um governo cujo ministro da Justiça havia declarado que a Polícia Federal estava fazendo um belo trabalho (e de fato tem feito, tirando-se o exibicionismo, que é criticado aqui não por outra razão, senão a de que presos nem sempre são criminosos. E o triste caso da Escola de Base em São Paulo é o maior exemplo)
Não falhe a memória, já vivemos tempos parecidos, “quando alguém que não sabia com quem estava falando” cometia a impropriedade de submeter o ilustre desconhecido aos rigores da lei. Era um tal de ser transferido para os cafundós que só quem viveu estes tempos sabe.
Os governos devem, sim, ser reavaliados a cada quatro anos, até porque, se o poder é precioso para seu provisório detentor, na mesma medida o é para o seu concedente, o eleitor.
Aliás, se longevidade no poder fosse algo bom, Cuba seria um país de primeiríssimo mundo, livre, um exemplo a ser seguido por outros presidentes e primeiros-ministros (temos o nosso, não nos esqueçamos).
Vai que resolvem ressuscitar o Conselho Federal de Jornalismo - lembremo-nos que um governo reeleito, no começo, consegue o que quiser - e a tal Ancinav, o outro monstrengo de controle da liberdade de expressão, e estaremos numa bela enrascada.
Vale bem aqui aquele velho dito da monarquia francesa: “Aos amigos, tudo; aos inimigos, o rigor da lei”. Ou a antiga frase getulista: “A lei, ora a lei...”
Não é por estes preceitos que se tem pautado o governo de Luiz Inácio? Cadê o rigor da lei para Waldomiro Diniz, para os assassinos de Celso Daniel, o prefeito da cidade de Santo André?
O autor, Luiz Leitão, é administrador e articulista - e-mail: lleitaodacunha@aol.com