Os exames têm um considerável grau de dificuldade. A pressão emocional é grande. O número de concorrentes, maior ainda. Se você é um dos candidatos que não conseguiu ser aprovado na rodada de provas dos vestibulares das universidades públicas do Estado (USP, Unicamp e Unesp), não se desespere: obviamente você não está sozinho.
O vestibular das instituições públicas é um processo altamente seletivo. Por essa peneira passam poucos e nem sempre os melhores grãos, na opinião do professor de psicologia da Unesp Ângelo Antônio Abrantes, coordenador de um projeto de orientação profissional na universidade.
“O vestibular não avalia a competência de ninguém. Se a gente avaliar o vestibular, vemos que é uma prova seletiva. Ela não está existindo para avaliar a pessoa, e sim para classificar. Nem sempre a pessoa que passou no vestibular é a mais preparada”, defende.
Independentemente das críticas aos critérios de seleção, segundo o professor um exercício importante para os candidatos reprovados é fazer uma auto-avaliação de suas competências e dificuldades, na tentativa de identificar os fatores que o impediram de ter um melhor desempenho na prova.
“Às vezes essa dificuldade está colocada no conhecimento, em outras no apavoramento do candidato frente à prova”, afirma o professor de psicologia, destacando o peso negativo do descontrole emocional no momento do exame.
Se o problema do candidato foi despreparo para responder as questões, então é importante avaliar a metodologia de estudo e questionar se não faltou um pouco mais de disciplina na preparação pré-vestibular. Agora, segundo o professor, se um dos principais problemas foi o descontrole emocional, a reflexão deve ser outra.
“As pessoas devem entender o vestibular por aquilo que ele é (um processo altamente exclusivo). E aí eximir um pouco a cobrança sobre si mesmo. Outra coisa importante é não deixar de viver por causa do vestibular. Alguns, que ficam altamente centrados nisso, deixam de passear, de se divertir, e isso vai acumulando um estresse. A sua vida se resume em função dessa prova e a vida é mais do que isso”, reitera o professor de psicologia.
Conhecendo a profissão
Segundo Abrantes, para o candidato reprovado que fizer a opção de dedicar mais um ano de estudo em busca do projeto de uma universidade pública, também vale aproveitar esse período para avaliar o curso de sua preferência e conhecer mais sobre a profissão escolhida. Na opinião do professor, muitas pessoas idealizam algumas atividades sem sequer conhecê-las.
Nesse exercício de reflexão, é importante inclusive questionar se a universidade é realmente sua meta pessoal. “Às vezes essa é a meta dos pais, às vezes é a meta dos amigos. Tem que ver se realmente é o que a pessoa quer para a vida dela”, orienta Abrantes, lembrando que ingressar numa faculdade não é garantia de sucesso profissional.
Segundo o professor Marcos Ueda, coordenador do curso pré-vestibular de um colégio particular de Bauru, junto a esse processo de avaliação pessoal também é importante que o vestibulando recupere a auto-estima e acredite que a reprovação não representa o fim das alternativas. Em outras palavras, para o coordenador, é preciso que o estudante não se deixe dominar pelo sentimento de derrota.
Sem efeito
A máxima “não se sinta derrotado” provavelmente seria recebida como um discurso vazio pela estudante Edna dos Santos Castro, 18 anos, que na última terça-feira deixava, cabisbaixa, a última prova do vestibular da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Ela, que se preparou sozinha para as provas, prestou pela segunda vez o vestibular para o curso de engenharia cartográfica da Unesp, e afirmou não acreditar nas suas chances de classificação. “Para quem sai de escola pública, passar em engenharia é difícil. Eu já vi o gabarito e notei que pela nota eu não fui bem”, diz a estudante, que faz questão de cursar uma universidade pública. “Agora eu vou ter que começar tudo do zero, vou ter que estudar tudo de novo, é difícil. A gente se sente desanimada”, confessa a jovem.
O mesmo sentimento de frustração era expresso pelo estudante Jefferson Henrique Pereira Savian, 18 anos que prestou vestibular para o curso de engenharia elétrica da Unesp. “A concorrência é muito grande. Eu acho que não vou passar”, diz o jovem, destacando que vai trabalhar no próximo ano para pagar um cursinho
Por um ponto, a estudante Beatriz Milo Lacerda, 17 anos, não passou para a segunda fase da Fuvest. Em busca de uma vaga no curso de administração de empresas da USP, Renata depositou todas as suas fichas na prova e não se inscreveu em outro vestibular. “Eu me senti muito derrotada. Porque eu estudei bastante o ano todo e tinha quase certeza de que eu iria passar”, desabafa a menina.
Já Renata Mayumi Sagawa, 17 anos, que também não conseguiu passar na primeira fase das provas da Fuvest, garante estar conformada. Ela, que prestou vestibular para física médica, no câmpus de Ribeirão Preto da USP, diz que não se sentia segura para estudar fora de Bauru.
O professor Abrantes lembra que existem diferenças de reação diante do resultado de reprovação no vestibular. Tudo depende da relação e do grau de entrega que o candidato estabeleceu com o processo seletivo.
“Lógico que têm pessoas que se sentem altamente frustradas. Têm algumas pessoas que acabam organizando a vida inteira em função da superação dessa barreira. E aí, quando não consegue superá-la, se sente frustrada”, conclui.
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Meta
Segundo o professor de psicologia Ângelo Antônio Abrantes, para quem tem uma universidade pública como meta e foi reprovado no processo seletivo, vale a pena insistir novamente no vestibular no próximo ano.
“Se a pessoa tem clareza do que ela quer fazer, se conhece o que quer fazer, mas se deparou com o obstáculo e não conseguiu superar, eu sou da opinião de que essa pessoa não deve contornar o obstáculo, mas enfrentá-lo novamente”, diz.
Caso contrário, vale também avaliar a possibilidade de arcar com os custos de uma universidade particular. Algumas em Bauru ainda vão realizar o processo seletivo.
Para os estudantes de baixa renda, o governo federal está oferecendo pela primeira vez nesse ano vagas no Programa Universidade para Todos (ProUni). O programa vai reservar um número de bolsas de estudo (parciais e integrais) para esse público em universidades privadas. Um dos critérios para a seleção no programa é o desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).