Está nascendo no Brasil um discreto debate ideológico sobre qual é a porta de entrada para a modernidade: se a fábrica ou a escola. Até muito recentemente, a fábrica, símbolo da industrialização, permitia que os pobres entrassem no mundo da modernidade. O salto social estava no emprego e na renda do trabalhador admitido pela porta fabril. Foi assim que milhões de nordestinos seguiram para o Sudeste e, em pouco tempo, conseguiram dar um salto social, graças ao emprego no setor industrial e nas áreas induzidas pela industrialização. Um deles chegou à presidência da República, graças a esse salto. O mesmo valia para as nações: a industrialização era o caminho do desenvolvimento. Com base nisso, o Brasil fez um pacto implícito com todas as suas lideranças, que dura pelo menos 50 anos, desde o governo Juscelino.
A crença de que a fábrica era a porta de entrada para a modernidade exigiu dos brasileiros um esforço equivalente a uma guerra. Permitimos que o País contraísse empréstimos até se transformar na mais endividada das nações do mundo. Toleramos a destruição do patrimônio natural até um grau máximo de irresponsabilidade. Sujamos águas, matamos rios, queimamos florestas, poluímos o ar das cidades. Criamos um absurdo caos monetário e enlouquecemos a população com inflações elevadas até nossa moeda se tornar provisória. Fomos obrigados a mudar o padrão monetário repetidas vezes. Desarticulamos nossa demografia, forçando uma migração desorganizada que resultou em cidades violentas, inviáveis.
Tudo isso para financiar, proteger e induzir a industrialização. Se não houvesse um pacto nacional, silencioso mas firme, isso não teria durado tanto. O resultado desse pacto não é, porém, favorável ao Brasil. Nossa realidade social é a prova de que a indústria tradicional não construiu uma sociedade equilibrada, pois faltou um sério programa educacional. E de que aquela escola que serviu ao País no passado não basta para os jovens de hoje em dia. Mais grave ainda, a industrialização contemporânea não absorve mais mão-de-obra em quantidade, apenas uma minoria de pessoas que têm um mínimo de educação.
O Brasil tem todas as condições para realizar um pacto social pela educação, como fizeram países como a Irlanda e a Espanha. Se optarmos por uma verdadeira revolução educacional, veremos que os recursos necessários existem e podem ser identificados no Orçamento, de maneira a federalizar a educação básica brasileira. Isso nos permitirá definir pisos mínimos de conteúdo de aprendizagem, de salário e formação para os professores e de equipamento para todas as 180 mil escolas públicas. E poderemos determinar metas para os próximos 20 ou 30 anos. Com esse pacto, e com um compromisso federal pela educação básica de todos os brasileiros, faremos com a educação o que fizemos com a indústria, com uma única diferença. Pela porta da escola, entraremos numa modernidade eficiente, justa e permanente.
O autor, Cristovam Buarque, é professor da Universidade de Brasília e senador do Distrito Federal pelo PT