Uma aterradora palavra inundou os meios de comunicação neste final de ano, para satisfação dos editores: tsunami, o nome de uma onda gigantesca que como uma hidra de mil cabeças líquidas e ferozes, levou à morte milhares de pessoas. Diante da tragédia o sentido da vida parece desvanecer-se. Por que a terra, a água e o céu se desencadeiam dessa forma contra seres humanos, deixando mães sem os filhos e filhos sem os pais, afogados e devorados como a bíblica baleia de Jonas, para depois serem vomitados na praia? A teoria do caos, de Lorenz, explica o lado físico mas não o metafísico. O simples bater de asas num hemisfério é capaz de provocar furacões no outro. Os efeitos de um tremor de terra são infinitamente maiores. Sim, e daí?
A rebelião do mar, imprevisível e calamitosa, nos remete a Moby Dick, a história da baleia branca. Herman Melville interpela todos os seres humanos em seu livro essencial: “Pensem vocês na astúcia do mar que perfidamente oculta, sob matizes sedutores de azul, estranha ferocidade. Pensem no canibalismo universal do mar: todas as suas criaturas se dão caça mútua, mantendo-se em guerra incessante desde o começo do mundo.â€
O “canibalismo universal do mar†tem uma analogia curiosa com esse Moloch devorador que são os meios de comunicação. Há uma briga estatística pelos mortos, publicação de tábuas classificatórias na esperança de que um novo recorde de vítimas seja batido. Stalin tinha razão: meia dúzia de mortos compõe uma tragédia; acima de mil o problema é de estatística. É inevitável que assim seja. A morte inesperada, especialmente quando é massiva, é sempre uma notícia porque põe em jogo o sentido da vida. A morte é um enigma essencial. O jornalismo mostra a vida e a morte com a intensidade que somente tem a “plenitude do instanteâ€, na concepção do genial fotógrafo francês Henry Cartier-Bresson. A praia juncada de destroços e cadáveres se transforma, de um dia para o outro, em recanto paradisíaco de lazer para turistas indiferentes ao sofrimento alheio. A imprensa, quando ciente de suas responsabilidades sociais, produz tantos estragos quanto o mar em fúria. A imprensa americana repreendeu o presidente Bush que não se dignou a interromper suas férias para oferecer ajuda às populações atingidas. Quando o fez, destinou reles US$ 15 milhões para ajudar num conserto de estragos de mais de US$154 bilhões e 120 mil vítimas fatais. Deu menos do que o custo da festa de sua posse como presidente reeleito. O povo norte-americano deve estar envergonhado.
Depois de cobrir com sua Leica duas guerras mundiais e as maiores catástrofes do planeta no século 20, Cartier-Bresson dizia que “as tragédias falam alto na imprensa, mas é o silêncio dos mortos que deixam os fatos falar por si mesmosâ€.
Quando um terremoto seguido de maremoto destruiu Lisboa em 1775, Voltaire escreveu um poema dizendo que a catástrofe que matou entre 70 a 90 mil pessoas era a prova maior de que Deus não existe. O dia do desastre, 1.º de novembro, era um domingo e as igrejas estavam cheias de fiéis que morreram sob os escombros. Mas Voltaire nunca foi ateu. Apenas tinha raiva da Igreja. Dizia que se “Deus não existisse precisaria ser inventadoâ€. A não existência de Deus não faria do seu inquilino um bom pagador - ironizava. Jean-Jacques Rosseau entrou na discussão argumentando que, pelo contrário, a tragédia era a prova da existência de um Ser Superior. Acreditava num Deus justiceiro que, no caso atual, foi capaz de colocar velhos, moços, ricos, pobres, gays, héteros, budistas, cristãos e ateus, europeus e asiáticos nas mesmas águas sem roupas e sem documentos.
Spinoza defendia que Deus é identificado com a natureza (Deos sive natura), portando, seria também responsável pelos espasmos do Planeta. Uma explicação que mata a charada, pelo menos para a maioria. Mas os desígnios de Deus continuam insondáveis. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)