Tribuna do Leitor

Eu Tenho Medo


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Eu tenho medo de ser branco e manifestar orgulho disso e ser processado pelo Roque Ferreira;

Eu tenho medo de ser descendente de italianos e espanhóis e não poder expressar orgulho das minhas origens sem que Roque Ferreira me processe;

Eu tenho medo de, por ser branco, ter que pagar por uma conta que o Roque Ferreira disse que tenho, sem poder contestá-la ou saber se tenho que realmente pagá-la;

Tenho medo de ser pai e, ao aplicar um corretivo no meu filho, assim como meu pai fez comigo nos tempos em que eu era o senhor absoluto do mundo e ser processado por maus tratos à criança e ao adolescente;

Tenho medo de colocar meu filho, que ainda nem fiz, para trabalhar e aprender a dar valor no dinheiro, como meu avô fez com meu pai, que também fez comigo, e ser processado por exploração de menor;

Tenho medo de ficar em uma situação financeira difícil e não poder ajudar meus pais e sogros e ser processado por abandono de idosos;

Tenho medo de servir ao meu País e lutar contra um grupo de bandidos armados que amanhã podem se tornar mártires e suas famílias receberam indenizações monstruosas enquanto o pobre do militar que cumpriu apenas ordens recebe um soldo que mal dá pra se alimentar;

Tenho medo de defender a única coisa que tenho vontade de conseguir na vida, uma fazenda, de um grupo de boné vermelho e ser acusado de ser latifundiário, palavra que nem eles sabem o que significa e ter que ver eles destruírem tudo sem ninguém ser preso e ainda jogar a culpa em quem trabalhou para comprar aquilo;

Tenho medo de me dedicar horas e horas trabalhando e estudando para fazer um mestrado enquanto outras pessoas vão aos desfiles de Carnavais, aos campos de várzea, aos botequins da vida e depois dizerem que sou um privilegiado por consegui fazer um mestrado;

Tenho medo de ser assaltado por um menor e ter que ouvir que ele é apenas um adolescente, uma criança que não responde por seus atos, mesmo que tire a vida de alguém;

Tenho medo de perder algum ente querido por obra de algum bandido e saber que ele vai comer, beber e ainda ter os meus supostos colegas dos direitos humanos para sempre que precisarem de creme de barbear, de banho de sol, de mais uma refeição, afinal, quem vive com 5 refeições diárias, enquanto eu, dor, saudade, revolta, angústia, etc;

Tenho tanto medo destas coisas que não sei porque ainda estou morando aqui, nesta cidade, neste Estado, neste País e ainda não me mudei;

Deve ser porque respeito à opção de meus ancestrais de virem ao Brasil para construir um mundo melhor, deve ser porque meus amigos negros, brancos, pardos e amarelos sempre gostaram de mim e eu deles. Independente de culpa, cor da pele, sempre estivemos juntos no mesmo barco. Deve ser porque acredito nas pessoas que acordam cedo para trabalhar e acreditam que podem mudar o mundo para melhor, sem ficar achando inocentes ou culpados em seu passado, apenas lutando para melhorar o hoje e o amanhã. (Evandro Silva Salvador, bauruense, paulista, brasileiro, neto de italianos e espanhóis, casado, inscrito na OAB/SP sob n.º 149.634, sem filhos e sem posses e com muito medo da vida - RG n.º 23.641.822-1)

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