Festa, mesa farta, bebidas, parentes, amigos e uma dose de alegria compõem o cenário tradicional de uma ceia de Ano Novo, da qual muitas pessoas certamente participaram na noite de anteontem. Mas nem todos comemoram a data. Em bairros carentes de Bauru, o Réveillon é um momento comum para muitas famílias que não têm condições de comemorar.
A felicidade com a chegada de mais um ano transformase em tristeza devido à falta de alimentos, recursos, da família reunida e de “motivos para comemorar”, como dizem os próprios moradores de bairros carentes. Nem mesmo a esperança de um emprego ou uma casa melhor no novo ano contagiam essas pessoas castigadas pela miséria e pela dura realidade da vida na favela.
A dona de casa Eliane Luciana de Souza, 39 anos, mora na favela do Ferradura Mirim com o marido e oito crianças, entre filhos e netos. Em casa, ela cuida dos menores. O esposo deixou de trabalhar porque sofreu traumatismo craniano em um acidente de trânsito. A única renda da família vem do dinheiro obtido pela filha mais velha com a venda de materiais recicláveis recolhidos nas ruas da cidade.
A família de Eliane não comemora o Ano Novo. Quando há alimento, eles fazem uma refeição - geralmente de arroz, feijão e verdura. Quando não tem comida, eles dormem, sempre antes da meianoite.
“Está difícil aqui. Antigamente, ajudavam a gente dando uma cesta. Agora, ninguém dá nada. Só um homem que aos sábados nos dá sopa e verdura. Eu já não agüento mais comer repolho, couve e almeirão. Quando tem. Quando não tem, é só arroz e feijão”, expõe a moradora do Ferradura Mirim.
“Mas o importante é que as crianças estão com saúde. Tendo um arroz e feijão está bom porque tem gente que não tem nem isso. A gente tem que dar graças a Deus quando tem arroz e feijão, porque tem dia que não tem. Tem dia que tem só o feijão e não tem o arroz, ou tem só o arroz e não tem o feijão”, lamenta Eliane.
Cleusa de Oliveira, 47 anos, está desempregada e mora na favela do Parque Jaraguá com o filho. Assim como Eliane, ela não comemora o réveillon. Na noite de 31 de dezembro, ela foi à Igreja Batista onde, após o culto, participou de um jantar.
“Eu não comemoro. Eu só vou à igreja, que oferece o jantar. Vou sozinha. Depois volto para casa e durmo. Que eu saiba, ninguém comemora aqui no bairro. Ninguém faz nada. É como se não tivesse Ano Novo”, conta.
Mesmo sem comemorar a virada do ano, Cleusa afirma que fica contente com a data. “Eu acho bom porque eu tenho esperança de que as coisas melhorem. Por enquanto, ainda não melhorou. Mas neste próximo ano vai ter de melhorar”, acredita.
“Eu não tenho nada de felicidade. Eu fico feliz porque eu tenho Jesus comigo. Só isso. Do contrário, eu não tenho nada de felicidade”, acrescenta a moradora do Parque Jaraguá.
Improviso
Por outro lado, há moradores que, mesmo sem recursos e enfrentando inúmeras dificuldades, fazem questão de comemorar o Ano Novo, ainda que no improviso.
É o caso da dona de casa Claudinéia da Silva, 25 anos, que mora em um barraco no Jardim Nicéia com três filhos e o marido. Na noite de 31 de dezembro, eles vão à casa de parentes que também moram no bairro para comemorar.
“A gente faz churrasco e comemora com a família, aqui no Nicéia mesmo, na casa deles. Para mim, é uma data feliz porque a gente tem muito o que comemorar - os parentes, os amigos mais próximos, uma vida nova. Eu tenho esperança de que nossa vida melhore. Eu gosto de comemorar e todo ano a gente comemora”, frisa Claudinéia.
O catador de recicláveis Cristiano Aparecido Arcanjo, 30 anos, morador do Ferradura Mirim, também tenta esquecer os problemas na noite de Ano Novo para festejar. Ele acredita que as pessoas devem aproveitar o Réveillon para pensar em uma vida nova, deixando a velha para trás.
E comemora da maneira que for possível. “Se tiver
água para beber, a gente bebe. Se tiver suco, a gente bebe”, diz Cristiano.