Bairros

Na favela, morador não comemora

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 2 min

Na periferia de Bauru, é comum para alguns moradores que o Ano Novo seja uma data como outra qualquer e que passe em branco, sem festa. Eles afirmam que não há recursos nem motivos para comemorar, já que vivem em situação de miséria.

A dona de casa Eliane Luciana de Souza, 39 anos, que moradora da favela do Ferradura Mirim, é um exemplo. Ela vive em um barraco com o marido e oito crianças, entre filhos e netos.

O esposo teve traumatismo craniano num acidente de trânsito e não pode mais trabalhar. Eliane tem de cuidar das crianças. Quem sustenta a casa é a filha mais velha do casal, que é catadora de recicláveis e eventualmente trabalha como diarista.

“A gente não comemora porque não tem nada. A gente vai dormir. É só uma comidinha. Se tem mistura, come; se não tem arroz e feijão, a gente vai dormir. É um dia normal, igual aos dias de semana, como outro qualquer”, revela.

Ela conta que fica triste porque gostaria de ter comida para oferecer a seus filhos. “Quase todos os dias não tem leite para dar para as crianças. Tem que dar água com açúcar. É difícil, mas a gente vai levando. A gente fica triste por dentro porque a gente queria ter todo dia comida para dar para as crianças”, lamenta.

Mesmo vivendo em situação de extrema pobreza, Eliane afirma que fica alegre pelas pessoas que podem comemorar a passagem de ano. “Tem muita gente que comemora, que passa bem. A gente come o que tem, vai dormir e fica escutando os rojões, as coisas que os outros soltam. Vamos fazer o quê?”, questiona a moradora do Ferradura Mirim.

A catadora de recicláveis Silvanira Maciel, 40 anos, também moradora do Ferradura Mirim, é outro exemplo.

“Para mim, é um dia comum. Não tem festa. A gente procura orar pelas pessoas. O que eu puder fazer pelos meus filhos, eu faço - uma comidinha, se der, eu faço. Mas não comemoro”, destaca.

Moradora do Jardim Nicéia, a catadora de papel Sebastiana Aparecida Felipe, 36 anos, conta que os dias 31 de dezembro e 1.º de janeiro são tristes para ela. “A gente não comemora a passagem porque não temos condições. É um dia comum. É um dia, para nós, de muita tristeza. Vamos dormir cedo porque não tem como comemorar. Eu fico triste por isso”, confessa.

Segundo Sebastiana, a renda da família não é suficiente para manter a casa. “No dia-a-dia, tem vezes que nós passamos dificuldades e temos até que pedir para comer. A vida é essa, mas dá para ir levando”, afirma.

“Minha filha estudou com os cadernos que nós encontramos no lixo. Até as roupas que nós usamos são do lixo ou são ganhadas. Essa é a vida que estamos levando”, expõe.

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