Cultura

O que deu certo em 2004

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Como faz há mais de 50 anos, o senhor Antônio Correia, morador do núcleo Bauru 16, lidera um grupo de Folia de Reis e entra o ano cantando e louvando o Menino Jesus e, desta maneira, mantendo uma tradição secular cada vez mais escassa pelo País. Em 2004 não foi diferente. Correia e seus companheiros, que há seis anos integram o Folia de Reis, o único grupo que mantém viva a celebração na cidade, não só preservaram a cultura popular como também conseguiram lançar dois CDs.

Em maio veio “Folia de Reis”, com cantigas tipicamente paulistas. Em setembro chegou o “Volume 2”, com temas comuns em folias de outros estados como Goiás, Minas Gerais e Bahia. O mais importante sobre estes lançamentos é que todas as músicas só puderam ser gravadas graças ao vasto conhecimento de Correia sobre a folia. Sem as gravações, o risco de alguns destes temas ficarem perdidos no tempo seria grande.

O feito de Correia e do Folia de Reis foi, apesar de até certo ponto restrito a um grupo de pessoas, um dos pontos positivos da vida cultural bauruense em 2004 pelo resgate que representou.

O ano de 2004 começou com a entrega de 19 projetos (11 dos quais habilitados para avaliação) em busca de verbas através da Lei de Estímulo à Secretaria Municipal de Cultura (SMC). Aprovada em outubro de 2003, a lei que destina 0,2% do orçamento arrecadado pelo município entrou em vigor em 2004 com a aprovação de oito projetos para o primeiro semestre, em março. Em junho inscrições para o segundo semestre foram abertas.

Entre os projetos agraciados com a lei que começaram a sair do papel estão “Escolinha de Catira do Clube da Viola”, do Clube da Viola de Bauru; “O Canto Dessa Cidade Sou Eu”, da Associação Cultural Arte Viva; “Simulacro”, do Núcleo de Teatro Contemporâneo da Sociedade Amigos da Cultura - Cia Sylvia Que Te Ama Tanto; e “Arte Mural Popular”, do Biocentro.

Livros e HQs

No Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”, em 2004, foram destaque dois eventos: a 1ª Convenção Regional de História em Quadrinhos e RPG, a Comic Fan Fest, e a quarta edição da Feira do Livro Infantil. A convenção teve um um bom público e mostrou como a cidade tem um grande número de aficcionados por quadrinhos, cartuns e RPG. Realizada em março, a Comic Fan Fest, além de destacar o trabalho de artistas locais, também trouxe à cidade nomes como Fernando Gonzales, Gustavo Duarte e Paulo Caruso.

O sucesso do evento acabou estimulando a criação da Gibiteca Municipal, com um acervo inicial de mais de três mil títulos, numa sala dentro da Biblioteca Municipal “Rodrigues de Abreu”.

A Feira do Livro Infantil, como nos anos anteriores, lotou as dependências do Centro Cultural desde sua abertura, no dia 13 de abril, até o fechamento, uma semana depois. Além das novidades literárias, a programação contou também com a participação de escritores, contadores de histórias e peças de teatro infantis.

Nos trilhos

A ferrovia não foi esquecida no ano passado. Ainda no primeiro semestre, a SMC começou seu programa piloto para efetivar passeios turísticos e educativos com a locomotiva a vapor 278, a maria-fumaça. Até o final do ano, viagens curtas foram feitas com o carro de passageiros S-22 e o administrativo O-1, ambos restaurados pelo projeto “Ferrovia Para Todos”, continua o seu trabalho para trazer de volta toda uma composição antiga.

Em setembro foi a vez dos ferroviários serem lembrados com o lançamento de “Nos Trilhos da Memória: Trabalho e Sentimento - História de Vida de Ferroviários da Companhia Paulista e Fepasa”, uma obra coordenada pelo professor e historiador Célio Losnak, com depoimentos de pessoas que fizeram a história da ferrovia em Bauru.

Em dezembro, o segundo volume, “Nos Trilhos da Memória: Ferro e Sangue - História de Vida de Ferroviários da Noroeste do Brasil e RFFSA” completou a homenagem. Os dois livros, frutos do “Ferrovia para Todos”, foram produzidos graças a uma parceria entre a SMC e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), entre outras entidades.

Além de resgatar parte da história da cidade nos trilhos, os livros se destacam por buscar a visão e as emoções dos protagonistas desta história, hoje senhores e senhoras há muito tempo aposentados e ainda saudosos dos tempos em que Bauru era um grande entroncamento ferroviário.

Em dezembro, o prédio da antiga Estação Sorocabana, localizada na altura da quadra 1 da avenida Pedro de Toledo, foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac). Construída em 1905, foi a primeira estação da cidade e é um imóvel de grande valor histórico para Bauru.

Em condições precárias de conservação, o prédio, que atualmente pertence à Rede Ferroviária Federal e é utilizado para embarque e desembarque de cargas, teve preservadas através do decreto, as fachadas externas (portas e janelas de ferro de madeira) frontais e laterais, plataforma e cobertura.

Música e exposições

Depois de meses de seleção, aprendizado e ensaio, a Orquestra Sinfônica Municipal de Bauru foi lançada oficialmente em 1 de setembro de 2004 e realizou suas primeiras apresentações em dezembro. Surgida de uma parceria entre as secretarias de Cultura e Educação, a orquestra é formada por 60 jovens com idades a partir dos 11 anos. Dirigido por Paulo Marcos Gomes Pereira, o grupo estreou no Teatro Municipal tocando sucessos populares como “Over the Rainbow”, “Imagine”, “Carinhoso” e “Noite Feliz”, entre outros.

Além da estréia da orquestra, Bauru recebeu no ano passado ótimos shows (como ingressos a ótimos preços) no palco do Serviço Social do Comércio (Sesc), entre eles os de Arnaldo Antunes, Frejat, Francis e Olívia Hime, Dóris Monteiro, Paulinho Moska e Jair Oliveira. No dia 1 de agosto, aniversário da cidade, o Recinto Mello Moraes recebeu pelo projeto Pão Music, do Grupo Pão de Açúcar, o cantor Lulu Santos, que realizou um grande show - gratuito - tocando todos os seus sucessos.

Entre as belas e variadas exposições que passaram pela cidade em 2004, uma marcou pela originalidade ao abordar a Grécia Antiga. “Que Herói Sou Eu? Pensando e Jogando no Mundo Grego”, recebida pelo Sesc antecipando os Jogos Olímpicos. Com grandes cenários e peças a mostra, apesar de voltada para crianças e adolescentes, foi um prato cheio para os adultos também. Além da introdução à mitologia, entre seus pontos altos estavam as instalações com o caminho de Teseu no labirinto e da aventura de Perseu para matar a Medusa.

Outra exposição que merece ser lembrada aconteceu em novembro no Templo Bar e reuniu a obra do pintor José Baccan. Com quadros de diversas fases da vida do artista, a mostra celebrou os 82 anos de carreira de Baccan. Nascido em 1914, ele começou a pintar com 8 anos e hoje, aos 90, ainda não largou o pincel. “A pintura é minha vida”, disse Baccan ao JC no dia da abertura da exposição.

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O que deve ser esquecido

Se citar a falta dos desfiles de Carnaval no Sambódromo de Bauru como um dos pontos negativos da vida cultural da cidade já é clichê, também é lugar comum lembrar reclamações “histórias” (seja de qual grupo ou entidade for) sobre falta de estrutura, de verba, de espaço, de pessoal especializado etc. etc., como decepções de 2004 porque seria injusto com o ano em si.

Dois episódios, para resumir tudo, merecem ser esquecidos este ano: a falta de luz no Teatro Municipal durante a apresentação do espetáculo “Personalíssima - A Vida, Os Amores e As Canções de Isaurinha Garcia”, com Rosamaria Murtinho e a média de 15,8 pessoas por sessão do filme “Pelé Eterno”, exibido no final de junho na cidade.

A falta de energia no teatro é, de longe, a mais vergonhosa. O espetáculo, um musical suntuoso com uma carreira de sucesso nas capitais e um ingresso nada barato, havia começado quando houve a primeira queda de luz, logo resolvida. Pouco tempo depois o teatro voltou a ficar às escuras e o musical terminou com luzes de emergência e lágrimas.

Rosamaria e o público ficaram indignados. Os responsáveis pelo teatro culparam uma oscilação na rede de alta-tensão. A Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) negou qualquer tipo de alteração e o vexame virou uma questão de “empurra-empurra”. Meses depois, a atriz, emocionada com o respeito do público bauruense, que não saiu do teatro enquanto a peça não acabou, voltou a se apresentar na cidade com o mesmo espetáculo, desta vez, no teatro da Universidade do Sagrado Coração (USC).

Rei sem prestígio

O Pelé que os bauruenses adoram citar como um “quase filho” da Capital da Terra Branca não conseguiu levar aos cinemas nem 20 pessoas por sessão para vê-lo fazer os mais espetaculares gols que um jogador de futebol já fez.

O documentário de Anibal Massaini, o mais completo documento em filme sobre o jogador, estreou em Bauru no dia 25 de junho e ficou em cartaz até o dia 1 de julho. Nos sete dias de exibição em duas salas (um total de 25 sessões), teve um público de 396 pessoas, uma média absurda de 15,8 pagantes por exibição.

É verdade que o filme era bastante específico para atrair um grande público, tanto que não foi bem nas bilheterias de todo País, mas a falta de interesse do bauruense pela fita (que traz inclusive depoimentos de moradores da cidade) é uma decepção. E uma decepção não para o jogador, que sempre deixou bem claro que “sua cidade” é Santos, nem para os produtores, que estão recuperando as perdas nos cinemas com a venda de DVDs, mas para o próprio bauruense, que ficou com um pouco menos de moral para brigar pela majestade de Pelé.

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