Tribuna do Leitor

Uma árvore, um símbolo


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Existe um sentimento de grandeza que não vem dos livros nem da influência das pessoas, algo muito pessoal que dá aos olhos uma verdade nem sempre vista com muita freqüência. Disto resulta uma sensibilidade enorme e uma predisposição para ver o belo nos mínimos detalhes.

Olha-se para um canto da casa e antevê-se como ficaria mais alegre se ali se colocasse um jarro de flores. Vai-se para o quintal e vaticina-se como seria mais alegre se naquele local se colocasse pequenos bebedouros para colibris. Olha-se no espelho e constata-se como se ficaria com a fisionomia mais amistosa se nela se dependurasse um meio sorriso que fosse.

Parecem banalidades. Mas, são justamente as pequenas coisas do cotidiano que enchem nossos dias de vida! É preciso reaprender a enxergar a existência, a dar um toque especial naquelas flores dentro do vaso, a rearrumar os móveis do quarto ou da sala. Há tanta coisa a fazer e, no entanto, quase nada se faz, arrastando o viver como um fardo, quando, na verdade, não é nada disso. Pois não foi Cecília Meireles quem disse que “a vida só é possível reinventada”?

Será que toda vez que você anda pela avenida Getúlio Vargas não se encanta com aquela árvore enorme, copada, verde, contrastando com o céu azul e os prédios servindo-lhe de fundo? Pois, eu, sempre que por lá passo, não me canso de apreciar aquele cartão postal, estático, colorido, premiando os transeuntes, dando um sentido àquele local e competindo com o esplendor do Sol. “Árvore verde, meu pensamento em ti se perde”, como dizia Fernando Pessoa...

Quem quer que seja tenha tido a magnífica idéia de preservar aquela árvore, merece uma palavra de carinho e de agradecimento. Deve ser uma pessoa especial, de fina sensibilidade e raras qualidades espirituais. Deve ser, como escreveu Clarice Lispector, “uma pessoa que é a realidade, em vez de pensá-la”. E ser a realidade, continua ela, é o máximo de espiritualidade.

É, realmente, necessário reinventar a vida. Reinventá-la, para que, como ficou dito num poema de Cecília Meireles, não levem as grades de prata da varanda, não levem a sombra dos limoeiros, a casa de telhado verde, a dama e seu velho piano... Que bom, deixaram pelo menos a velha árvore copada, imensa, verde e também “as pálpebras dos antigos sonhos”, a fim de não nos socorrermos tão-somente da memória ou das lágrimas... (Dra. Maria da Glória De Rosa)

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