Tribuna do Leitor

O maior centro-avante


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Romário encerra sua carreira. Apesar de seu último ano no Fluminense ter sido um pálido retrato do extraordinário jogador que foi, certamente a história do futebol brasileiro não se contará sem os feitos deste excepcional futebolista. Usou sempre, dentro e fora dos gramados, da característica inconfundível de manter-se na mídia esportiva apenas por seus feitos. De herói ou de bandido. Talvez mais de bandido, pela moral vitoriana que qual tsunami gigantesca de volta ao mar é recorrente neste século XXI.

Desde o início da sua carreira, nunca aceitou ser o jogador bonzinho, nunca foi atleta de Deus, nunca apareceu em manchetes dedicando gols importantes às criancinhas e nem, ao que se saiba, criou fundações financiadas por ONGs respeitáveis ou não, para “tirar os meninos da rua”, e devolvê-los aos seus barracos da favela, com conhecimentos de informática, canto, balé e capoeira, embora ainda na contra-mão do emprego que nas estatísticas oficiais crescem. Por isso mesmo encerra a carreira dizendo-se indisponível para ser treinador ou coordenador de “escolinhas”, visto que não mais suporta treinos, concentrações, viagens. Ou seja, pouco se lhe dá a “maldição” que lhe colocaram sobre os ombros.

Quem acompanha o futebol nos últimos 50 anos sabe de cor e salteado quanto fizeram bem às conquistas nacionais ou internacionais, os ditos “jogadores malditos”. Almir Pernambuquinho, César Maluco, Serginho Chulapa, Chicão, Afonsinho, Djalminha, Marinho Chagas, Edmundo, Chilavert, Didi, Válber, Zé Roberto, Manga, Gerson, Rivelino, Paulo César Caju, e tantos outros, em diversos momentos encantaram as platéias com sua irreverência e levaram muitas vezes os clubes ou seleções que defendiam a inesquecíveis vitórias.

Romário faz parte deste grupo. Talvez modernamente seja a sua mais perfeita tradução. Ele foi o Cazuza ou o Lobão da música, o Diogo Mainardi ou o Paulo Francis da crônica. Um Toulouse-Lautrec da pintura ou um Paulo Leminski da literatura. A “maldição” pouco lhe interessou. Exorcizou-a com um futebol de primeira água. Quem entende de futebol, como Parreira, sempre o elogiou. Quem entende mais de pieguismo, como Felipão, sempre o execrou.

Os amantes do futebol como eu terão imorredoura saudade do maior centro-avante que este país já teve. Sua habilidade, sua presença de área, sua curta corrida (medida apenas com o suficiente para chegar primeiro à bola), seus gols de cabeça sem sair do chão, suas cobranças de faltas perfeitas. A malandragem hoje tão em falta, em Romário tinha o seu zênite. Como ele mesmo dizia, fingia-se de mortinho durante minutos sem fim, para de repente dar o bote fatal, que em geral se transformou nos mais de 800 gols de seu acervo.

Há quem diga que já vai tarde. Parte da crônica sempre lhe torceu o nariz, embora muito dele dependesse para dar as cotidianas notícias nas páginas de esporte. E Romário sempre foi notícia. E certamente há de ser um mito do futebol por muitos e longos anos ainda. Errou muito segundo o ponto de vista medieval dos que não respeitam os seus contrários. Mas, encantou muito mais às platéias de todo o mundo e por onde passou no seu andar escorregadio, no seu falar preguiçoso de língua presa, sua técnica irrepreensível deixou a marca de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos.

Marco Antônio de Souza - OAB/SP 55.799

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