O novo secretário de Esportes de Bauru é Antonio Carlos Barbosa, técnico da Seleção Brasileira de Basquete Feminino. Empossado na semana passada, o novo titular da pasta, em entrevista ao JC, disse que não tomará nenhuma medida de impacto ou que fará grandes mudanças a curto prazo, quer fazer primeiro uma análise da real situação da Secretaria Municiapal de Esportes e Lazer (Semel).
Barbosa disse ainda que sua prioridade será o esporte de formação e o lazer popular, mas que não irá deixar de lado as questões relativas ao esporte coletivo de alto rendimento, como futebol, vôlei e basquete. Confira a entrevista do novo secretário que já esteve à frente do esporte bauruense entre 1984 e 1992, nas gestões de Tuga Angerami e Izzo Filho.
Jornal da Cidade - Qual será, ou foi, a sua primeira medida á frente da Semel?
Barbosa - Não existe medida de impacto, acho que elas são muito difíceis de tomar. Minhas primeiras providências são levantar a questão funcional, ver onde cada funcionário está, procurar adequar dentro daquilo que eu penso, colocar cada um no lugar que eu julgo ser melhor para o desenvolvimento do meu trabalho. Pôr para funcionar imediatamente as escolinhas e os projetos na área de lazer e começar reuniões com os esportes competitivos e ver onde podemos chegar.
Preciso também levantar os restos a pagar, discutir com o secretário de finanças como pode ser equacionado isso. Porque eu acho que tudo tem de ser feito às claras e o secretário tem de ser claro comigo também, me passar a real situação financeira da pasta, o que eu vou poder ou não contar em termos financeiros.
Vou tentar marcar uma audiência com o Agnello (Queiroz, ministro dos Esportes) para ver o que é possível em termos de convênios para construção de praças esportivas e projetos. Mas não existe medidas de impacto, não é o momento e não há necessidade. O que é preciso é continuar o trabalho que vem sendo feito, melhorar o que for possível e manter o que funciona.
JC - Qual será o perfil de sua gestão?
Barbosa - Apesar de já ter exercido o cargo, estou fora há 12 anos e a secetaria mudou muito, aumentou o quadro. Eu toquei uma Secretaria de Cultura e Esportes com cinco diretores. A própria secretaria precisa passar por uma reforma estrutural, o prédio já está desgastado, a Cohab funcionou lá em 1978, depois veio a Casa da Cultura, até 1990. Precisamos de uma estrutura melhor, um prédio mais bonito dará a impressão que já mudou muita coisa.
Mas o meu perfil é de atuar de uma maneira muito forte na parte de formação e da área de lazer e manter os eventos que já vinham sendo feitos. Estou ouvindo as sugestões dos funcionários e de pessoas ligadas ao esporte, das pessoas que já estão lá. Porque a função do secretário, além de dar algumas linhas, é receber sugestões dos funcionários. Assim como o prefeito ouve os secretários.
JC - Além das dívidas já existentes, a Semel é uma das pastas que tem menor participação no orçamento e ao mesmo tempo a área de esporte exige investimentos nem sempre pequenos. Como os senhor pensa em lidar com isso?
Barbosa - O esporte sempre está em segundo plano nos orçamentos. Infelizmente, o País, de uma maneira geral, não tomou consciência do valor do esporte dentro de um conceito de integração com saúde, educação e cultura. Então vamos ter de nos adequar, pelo menos neste primeiro ano, com aquilo que vamos receber.
O modelo de esporte no Brasil é complicado, porque não tem uma definição de tradição e permanência, é um modelo falido. Nos Estados Unidos, por exemplo, tem uma definição, o amador é feito pelas universidades e o profissional por ligas, por franquias, com equipes com donos, com um fim lucrativo. Na Europa, são clubes, empresas, com incentivos fiscais. Aqui não, você tem campeonatos que misturam universidades, prefeituras e clubes.
O que a gente percebe de uma maneira geral é que a questão financeira da prefeitura está muito ruim, eu tenho recebido a visita de algumas modalidades que estão reivindicando verbas atrasadas, repasses que não foram feitos. Isto é uma situação que não é específica da secretaria de esportes, é o todo da administração, que sofreu ao longo desses últimos seis anos um processo de endividamento muito grande, que também não começou na gestão do Nilson (Costa, ex-prefeito), tem coisas que já vinham acontecendo, mas agora estourou. Mas estou numa secretaria que tem investimento menor, então o endividamento também é menor.
JC - E sobre a gestão do Sapé (José Roberto Franco, antecessor do cargo na Semel)? Qual as impressões que o senhor tem?
Barbosa - Eu acho que o trabalho na secretaria, eu vi de longe, foi feito o possível. Acho que foi uma secretaria que sempre se fez muito presente, fez muitas competições, promovendo ou apoiando. Então esta é uma parte que temos de continuar. Dentro de esportes competitivos, como os Jogos Regionais, temos de procurar manter a supremacia de Bauru na região. Já nos Jogos Abertos (do Interior) é difícil avaliar, porque o que conta é o nível de investimento nas contratações. Os Regionais também já estão indo para este caminho. No ano passado, Jaú investiu em contratações e por pouco não tirou o título de Bauru.
Eu sou a favor de você trazer um atleta de alto nível para Bauru, mas desde que esse atleta venha para ficar, aí sim, esse atleta vai alavancar o surgimento de outros, vai servir de espelho. Mas sou contra essas equipes de passagem, que são contratadas, jogam e vão embora. Isso não deixa nada, não planta nada. Acho que essas equipes que você contrata para um período muito curto não funcionam.
JC - Então qual vai ser a prioridade da Semel em sua gestão?
Barbosa - Não podemos definir uma prioridade em detrimento de outra. Temos de trabalhar em três frentes. A primeira é o lazer, que foi uma parte que deu muito certo na minha primeira gestão, que nós trabalhávamos muito com ruas de lazer, praças, realizamos muitos eventos em que oferecíamos o esporte à população de uma maneira informal e que propiciava que todos participassem, de crianças a idosos. Aliás daremos novamente uma atenção especial à terceira idade.
Além desses projetos fixos, faremos também aqueles rotativos, ou seja, hoje vamos à praça Gastão Vidigal, no Jardim Ferraz, amanhã, vamos no Mary Dota, outro dia, numa praça do Jardim Petrópolis, etc. Vamos levar uma infraestrutura móvel de lazer aos bairros, com palhaços, cantores, jogos, técnicos de ginástica e outras formas de recreação. Ao lado disso promoveremos eventos em datas comemorativas.
JC - Mas como fazer isso sem dinheiro, ou com pouco?
Barbosa - Claro que para isso buscaremos parcerias com a iniciativa privada e também a integração com outras áreas da prefeitura. Vamos buscar integração com a Sear (Secretaria Municipal das Administrações Regionais), com a Cultura e com a própria Emburb. Essa integração é importante e acho que essa é uma linha que o prefeito deve adotar. O pólo principal é o Tuga (Angerami, prefeito municipal) e todos nós temos de nos unir sempre e trabalhar sempre visando o melhor.
Acho que não podemos ter “galácticosâ€, galáctico tem de ser um só. O Real Madrid juntou um monte de craques e não ganhou nada porque cada um correu para o seu lado.
JC - E quais seriam as outras frentes?
Barbosa - Outra frente que vou priorizar é a parte de formação. Acho que essa é uma obrigação do poder público. Hoje nós temos de integrar educação, esporte e saúde. Porque hoje, através do esporte, você educa, gera saúde e até aplica em segurança pública, porque à medida que você consegue manter a criança ocupada e incentiva ela à prática esportiva você tira ela do foco de outras variáveis.
Vamos procurar reestruturar ou fazer mais que vinha sendo feito nessa área de formação. Muitas vezes nós desperdiçamos ou não damos oportunidade da pessoa ver que ela tem talento, porque sequer ela tem oportunidade de praticar o esporte. Nós temos em Bauru uma grande defasagem em (espaços) próprios municipais, fazem 12 anos que não se contrói nada em termos de próprios municipais é uma situação que eu passei para o Tuga e que vai ter de ser feito algo.
JC - Andando por Bauru é possível ver praças que tinham quadras e algumas até tabelas para jogar basquete totalmente deterioradas. O estádio Edmundo Coube é um exemplo, está abandonado e sendo devorado pelo tempo. Além de não ter sido construído nada nos últimos anos, o pouco que tinha parece estar acabando. O que o senhor pretende fazer em ralação a isso?
Barbosa - Essas praças a céu aberto são um grande problema. A manutenção delas é difícil, é também uma questão de conscientização da própria população em torno de cuidar daquilo que é dela, é uma questão de cidadania também.
É claro que não é um problema que devemos jogar agora para o Tuga resolver já. Espero que ele tenha oito anos de mandato e que nesse período ele consiga solucionar esta falta de equipamentos esportivos.
Existem regiões como o Jardim Ferraz, Vila Independência, Ouro Verde, Jardim Solange, Jardim Vitória, Vila São Francisco, Jardim Eugência, que não tem nada, tem apenas um campo de futebol, que é o Edson Leite, não tem um ginásio de esporte, nada. E tem espaço para ser construído muita coisa. É questão de dar mais atenção, são equipamentos baratos e que nós temos de buscar parceiros e integração entre os departamentos da prefeitura para instalar equipamentos nestes lugares.
Vou tentar nestes quatro anos, que eu espero que sejam oito, do governo Tuga, que a gente consiga mudar esta situação. Eu estive visitando a Mangueira, no Rio de Janeiro, e eu vi que lá é uma coisa muito simples, mas de uma utilidade espantosa. Eles têm um ginásio simples, salas pequenas, acanhadas, mas com um utilização extremamente bem aproveitada. Parte médica, sala de balé, informática, ginástica, quadras de basquete. É um projeto maravilhoso que a Xerox tem lá, então vamos buscar alguma coisa parecida com isso. Se não temos como conseguir um parceiro como a Xerox, vamos tentar com o poder público mesmo. Mas isso é a médio e longo prazo. A situação atual da prefeitura não permite nem se pensar em a construir algo a curto prazo.
JC - E em relação ao esporte de alto rendimento, como a Semel vai se comportar em sua gestão?
Barbosa - Não adianta esperar que a Semel vai bancar a contratação de atletas como a Virna ou a Fernanda Venturini, mas isso não quer dizer que não vamos fazer nada pelo esporte de alto rendimento, vamos buscar parcerias como tem até hoje. Porque se a gente também não incentivar o surgimento de equipes de alto nível, também perdemos o incentivo para o surgimento de jogadores, porque o próprio técnico das escolinhas não se sente incentivado, porque sabe que o atleta que ele formou ou vai embora com 16 anos ou desiste, porque não tem equipe para ele.
É importante que tenha um continuidade na carreira dos atletas formados aqui, e isso é possível com patrocinadores locais. O mais recente exemplo é a Sukest que surgiu o ano passado como um grande patrocinador para o basquete masculino, que tem um trabalho de base, revela jogadores. Bauru é uma das poucas cidades em que as universidades não entram de uma maneira firme no esporte. Vamos tentar sensiblizar estes tipos de parcerias.
JC - Como a Semel poderia colaborar para que empresas e universidades contribuam mais com as equipes locais?
Barbosa - Nós temos de fazer um levantamento com muita calma, porque falar em incentivo fiscal, é igual a renúncia fiscal. E estamos numa situação no município hoje, que a prefeitura não pode nem pensar em renúncia fiscal. É uma saída dar alguma vantagem para que essas empresas invistam e logicamente não usufruam apenas dessa vantagem, pois ela estará dando uma visibilidade ao seu nome, porque está mais do que claro o quanto o esporte divulga o nome de uma empresa.
É preciso ver a viabilidade legal de um eventual incentivo fiscal, o próprio governo federal não conseguiu viabilizar uma lei nesse sentido para o esporte. Se bem que o Lars Grael (secretário estadual de esportes) está tentando, no Estado de São Paulo, viabilizar algo em termos de ICMS, isso poderia repercutir em Bauru.
É uma questão de nos moblizarmos, porque o esportista tem um problema muito sério quando se trata de mobilização, o esportista de pulveriza, não se mobiliza, cada um corre para um lado. Quando se fala em lei de incentivo já começa uma disputa para ver quem vai receber mais.
Se o Lars conseguir viabilizar esta questão, a Semel estará a disposição das equipes e dos atletas para o que depender dela. A Semel tem obrigação de ser parceira do esporte de alto rendimento, mas temos de buscar isso de maneira legal.