Bairros

Bauru possui praças 'invisíveis'

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

O que caracteriza uma praça no cenário urbano? Poderia se definir uma praça como um lugar de encontro das pessoas. No aspecto paisagístico, poderia se descrever que uma praça é dotada de bancos, cercadas por árvores, algumas até centenárias, canteiros floridos, chafariz e coreto.

Bauru possui praças “invisíveis”, que pelo seu estado atual indicam grandes mudanças urbanas. Outro fato é que as pessoas que cederam o nome ao local são pouco lembradas. Estes lugares são o oposto da Praça Rui Barbosa, que abriga busto de figura ilustres e que ganhou sua denominação em 1923. Outras abrigam prédios públicos, como a Praça da Cerejeiras, com o prédio da prefeitura, e a Praça Dom Pedro II, com a Câmara Municipal de Bauru. Há praças rodeando igrejas, como a Rodrigues de Abreu.

Já a Praça Luiz Zuiani, no Higienópolis, tem entre seus freqüentadores moradores da redondeza que utilizam o espaço para caminhadas, no início da manhã e no entardecer.

Todas essas praças de Bauru têm em comum o fato de serem amplamente utilizadas pela população, ou como espaço de lazer, esporte e ponto de encontro, ou como acesso aos serviços do Poder Público Municipal. Algumas têm mais de uma forma de apropriação por parte da população, como no caso da Praça das Cerejeiras, onde há pelo menos dupla função. O espaço é compartilhado por quem necessita ir à prefeitura e, principalmente nos finais de semana, por moradores que passeiam e curtem o espelho d’água existente no local. Durante horas, as pessoas aproveitam o domingo observando o movimento sob a sombra de árvores com copas esparsadas. Nestes dias de calmaria, o Palácio das Cerejeiras é praticamente invisível e a praça tem o seu brilho ressaltado por seus atrativos.

Há situações em Bauru em que as praças nada se assemelham a uma praça. São espaços perdidos ou que se confundem com a paisagem urbana. A Praça Recanto dos Pioneiros é a frente do cemitério da Saudade, no Higienópolis. Praticamente, esta praça é imperceptível ao olhar de quem passa e percebe o muro do cemitério. Mas há um conjunto de pedras no chão e a que está no centro tem esculpida a frase: “Recanto dos Pioneiros. Cultuar os grandes vultos uma virtude das cidades. Bauru, 1958”.

Mas há casos mais gritantes de lugares denominados como praças que de praça não têm quase nada. Ao longo da avenida Pedro de Toledo há um circuito de praças pouco comum. Entre a Machado de Mello e a Itália existem quatro praças ao longo da avenida. No sentido bairro-centro, a primeira é a Praça das Bandeiras, muito utilizada para publicidade de faixas. Tem um canteiro em forma triangular muito mal cuidado.

Na seqüência, vem a Praça Leme da Silva, com uma paisagem discreta e em que se destaca o ponto de ônibus. Este local é ponto de frete de caminhões. A próxima é a Praça Parteira Bernardina, onde a Pedro de Toledo faz esquina com a Cussy Júnior. É comum se ver neste lugar carroceiros parados dando um tempo de descanso para os cavalos, que saboreiam a água de um bebedeuro para animais, o último da cidade, conforme relata o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito.

Antes de chegar na Praça Itália, cruza-se com a Praça Gomes de Araújo, na esquina da avenida com a rua Sete de Setembro. Neste ponto, há um banco sob uma árvore e uma banca de revistas.

Esses quatro pontos destoam completamente do conjunto de praças de Bauru por não guardarem, na atualidade, nenhuma característica.

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Livro revela ruas

A pesquisadora de história Márcia Regina Nava Sobreira teve a percepção de que o registro da história de Bauru tinha uma lacuna e lançou, em 2004, o livro que recupera a história de 280 nomes de ruas da cidade.

O livro traz biografias resumidas das figuras que denominam as vias e praças da cidade. Este ano, ela pretende lançar um segundo volume com mais cem nomes e projeta destacar gente mais comum. Nava explica que quis disponibilizar um trabalho para que as pessoas possam criar mais identidade com Bauru. Ela percebeu que poucas pessoas conhecem detalhes da história da cidade. O que confirma a célebre definição para Bauru: “chão de passagem”. Esta caracterização do movimento de pessoas que circulavam no município já era encontrado em relato do final do século XIX, quando os primeiros habitantes chegaram à região devido ao entrocamento ferroviário. “De certo modo, isso não mudou muito. Temos as rodovias agora”, justifica.

A pesquisadora tem convicção de que é possível as pessoas terem um relacionamento diferente com a cidade onde residem se tiverem um maior conhecimento da história do lugar. “De um nome de rua pode-se fazer uma analogia com a família de quem é homenageado.”

Em sua pesquisa, Nava descobriu que o nome de uma rua é definido pelo loteador ou pelo Poder Público. Isto indica que a população tem pouca influência na escolha. Ela conta que, a partir da década de 80, começou a aparecer nomes de pessoas mais populares. “Tem sempre parente de vereador e amigo sem expressão, mas que tem importante inserção na comunidade”, constata.

• Serviço

O livro Viagem Através das Ruas de Bauru pode ser encontrado na Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu, no Centro Cultural ou no Museu Ferroviário de Bauru.

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