Mais do que uma prática de construção e manutenção artesanal de instrumentos de cordas, a luthieria pode ser considerada uma arte. Assim como na pintura de uma tela ou no entalhe de uma escultura, os luthiers dedicam-se – como profissão ou hobby – à escolha das madeiras perfeitas e, posteriormente, ao trabalho de montagem e à perfeição dos detalhes e timbres que vão atender aos mais rigorosos ouvidos: os dos músicos.
Pela falta de formação especializada e pelo mercado fechado, são poucos os artistas que mantêm a luthieria como profissão no Brasil. No entanto, com o notável crescimento da indústria nacional de instrumentos, há espaço no mercado para aqueles que trabalham com manutenção. Com isso, novas tecnologias e a produção em série somam-se aos velhos truques dos artistas e a luthieria amplia seu valor.
Alessandro Pacheco, que é músico e trabalha como gerente de um hotel em Bauru, mantém a luthieria como hobby há pelo menos 12 anos. Ele relembra que começou a se interessar pela arte por não confiar os seus próprios contrabaixos a qualquer pessoa. “Sou muito crítico e não confiava a ninguém a manutenção dos meus instrumentos. Assim, surgiu essa paixão - mas na forma ‘custom made’ (feito sob medida) - pelos detalhes, minúcias da construção e beleza dos instrumentos”, diz.
Apaixonado por contrabaixos, Pacheco já finalizou cinco peças – além de outras duas que ele chama de “protótipos”. “Fiz poucos instrumentos até hoje, não existe demanda para produzir para vender. Eu vendi dois deles, mas construo para mim, pelo prazer de ver a peça pronta, pelo manuseio das madeiras. O grande segredo da luthieria é agregar a qualidade à simetria dos instrumentos”, comenta, em sua oficina, no fundo de sua residência.
De pai para filho
O luthier Paulo Roberto Campos não toca guitarra nem contrabaixo. Isso não o impediu de se fascinar pela arte e adotá-la como hobby permanente. Ele conta que seu filho Daniel é músico e ambos se interessaram pela produção de instrumentos há cerca de três anos. “Meu pai também era marceneiro, então acho que tem uma veia de marcenaria aí também”, brinca.
Ele comenta que sua paixão é realmente pela construção das peças e, até o momento, já finalizou dois contrabaixos e uma guitarra, e ainda trabalha em outra. Seu próximo projeto é a construção de um contrabaixo “up-right”, tocado em pé. “Os dois baixos ficaram com meu filho, eu fiz especialmente para ele, e a guitarra foi uma encomenda de um amigo dele. Geralmente, os instrumentos feitos à mão têm as características que o músico pede. Se ele quer algo diferente, com uma pegada diferente, o luthier faz como a pessoa deseja”, explica.
De acordo com Campos, a alta qualidade dos instrumentos customizados é o que mais agrada os músicos – e também o que agrega valor às peças. “Eles são mais bem acabados, não é como os de indústria, de linha de produção. Quem compra instrumentos de fábricas são músicos iniciantes, que procuram as lojas, vêem nas revistas. Quem já tem vivência na música procura um instrumento que agrade, que tenha uma pegada melhor... Quem conhece, exige uma peça diferente”, observa.
E quem deseja também precisa pagar o preço. Um instrumento customizado, feito por um luthier, pode chegar a custar cinco vezes mais do que um violão, baixo ou guitarra de marca nacional. Pacheco revela que um contrabaixo produzido por ele pode chegar ao preço de R$ 3 mil, enquanto numa loja especializada em instrumentos, um de marca conhecida pode ser encontrado a R$ 700,00.
Madeiras especiais
A escolha das madeiras é um dos itens mais importantes na produção artesanal de instrumentos. Pacheco, que trabalha com contrabaixos de corpo maciço, explica que cada tipo de madeira utilizada no corpo ou no braço do instrumento dá um timbre diferente ao som final. “Quanto mais alta a densidade da madeira, mais agudo é o som”, indica.
Na montagem, o corpo e o braço do instrumento maciço são formados por diversas peças de madeiras diferentes, coladas e posteriormente esculpidas. O último passo é o revestimento com verniz. Pacheco destaca também a importância da escolha das madeiras para o resultado final do visual da peça. “Geralmente, uso o pau-marfim, que tem uma cor mais clara. A imbuia é bastante usada pela timbragem e também pelo contraste da cor com o pau-marfim. Visualmente, fica um trabalho muito bom de luthieria”, conclui.
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Violões e violas têm técnica diferente de montagem
Ao contrário de guitarras e contrabaixos, que têm corpo maciço, a produção de um violão ou viola requer técnicas diferentes de manuseio das madeiras, por conta da caixa de ressonância. As peças precisam ser moldadas e encaixadas perfeitamente, criando o corpo do instrumento e dando os timbres perfeitos e desejados ao som.
O violeiro Levy Ramiro, de Pirajuí, trabalha com produção de instrumentos desde 1996 e já finalizou 38 peças, a maioria sob encomenda. Ainda assim, ele relata que mantém a luthieria como seu trabalho paralelo. “Eu trabalho com música, componho e já gravei dois discos e terminei o terceiro agora. Mas enquanto outros músicos vão dar aulas, eu preferi trabalhar na fabricação de instrumentos”, revela.
Parte dos ensinamentos para o manuseio das madeiras foram adquiridos enquanto Ramiro trabalhava com usinagem. “Adaptei o que aprendi na operação de máquinas para o trabalho com a madeira. Mas me considero mais um artesão do que luthier. Eu gosto de inventar instrumentos, já fiz peças com fórmica e com cabaça. Trabalho mais com a minha criatividade”, diz.
Pau-brasil
Apreciador do trabalho de luthiers, o músico José Antônio Bittencourt, o Bitenka, vem fazendo seus últimos shows com um violão feito especialmente para ele por um artista de Avaré. Além de algumas características únicas, como o desenho do corpo e o braço mais fino, o que chama atenção na peça é sua matéria-prima: o violão é feito de pau-brasil.
De acordo com o músico, o resultado da encomenda foi mais do que satisfatório. “Estou tocando num instrumento que foi praticamente moldado para mim. A sonoridade dele é perfeita, especialmente para tocar em eventos maiores e com banda. O som não se perde, não tem ressonância, não deixa aquele médio-grave sobrando. O som é praticamente pronto, e quanto mais você precisa dele, num evento grande, por exemplo, mais ele te dá”, elogia.