Me contou, certa vez, um italiano que o famoso bispo de Milão, Carlos Borromeu, pediu a um artista que pintasse um retrato da morte. Depois de alguns dias, o artista apresentou ao bispo um esboço do quadro. Neste a morte era apresentada como um esqueleto que possuía uma foice em uma das mãos e uma ampulheta na outra. Carlos Borromeu olhou para o desenho e, balançando a cabeça, comentou: “Você não deveria pintar a morte deste jeito!”
E, depois de meditar um pouco, se explicou: “A morte deveria ser retratada como um lindo anjo com uma chave dourada nas mãos.”
Para o filósofo Arthur Schopenhauer, o princípio absoluto do mundo, aquele que move o universo, é a vontade. Ela está em toda parte e presente em todo o ser vivo. Nas menores formas de vida, podemos encontrar a vontade - uma força cega, simples, mas intensa de autopreservação. O que distingue os humanos de outros seres vivos é a manifestação consciente da vontade. Em outras palavras, nós possuímos sim inconscientemente a vontade de viver mas esta, em nós, atinge a consciência e torna-se um ato racional. Uma vez que a vontade tenha atingido a consciência no cérebro humano, o mundo, então, torna-se uma idéia, é construído teoricamente, possibilitando assim que o ser humano possa não somente se preservar mas, principalmente, se desenvolver. Como afirma o próprio Schopenhauer, “superar as dificuldades é, para a experiência, o completo deleite de existência”.
Porém, para o filósofo, esta vontade - força que nos leva a viver e que nos faz ir a busca de ser - é, ao mesmo tempo, causa de todo o sofrimento no mundo. Schopenhauer afirma que a vontade faz com que o ser humano torne-se egoísta e ganancioso. Na sua visão pessimista do mundo, o filósofo acredita que a vida é essencialmente má. E ele não pára por aqui.
Apesar de terem a vontade como motor, os seres vivos possuem a morte como destino, como reta final - o que, na verdade, para o pensador alemão, se constitui em um paradoxo terrível. A vida é motivada pela vontade que nos impulsiona cada vez mais a ser e este, por fim, acaba se desencadeando em um único resultado: a extinção, a morte.
Sem dúvida alguma, poderíamos pensar como Schopenhauer e viver em um completo pessimismo diante do futuro, em uma depressão desanimadora. Porém, a própria existência de uma força vital, ou seja, da vontade, nos impede de vivermos assim. Justamente, esta necessidade que possuímos de viver, nos leva a contradizer a primeira afirmação pessimista do filósofo: a vontade não precisa ser necessariamente egoísta e gananciosa. Jean-Jacques Rousseau nos lembra que existe uma “vontade geral”. Para ele, esta vontade é o desejo de tudo. O que nos movimenta para a vida, não é apenas a soma de vontades individuais diferentes, mas uma vontade que cada um compartilha para o benefício de todos.
Rousseau escreveu, certa vez, que “aos 16 anos, o adolescente sabe a respeito do sofrimento porque ele mesmo sofre, mas ele dificilmente sabe o que outros seres também sofrem”. Sem dúvida alguma, muitos atingem a vida adulta sem amadurecer, ou seja, permanecem somente centrados em seus próprios sofrimentos, sem perceber que os outros sofrem. Mas amadurecer significa atingir a consciência de que outros também possuem uma vontade e o direito de serem felizes. Justamente nesta consciência de que todos possuem uma vontade e o direito em realizá-la está o verdadeiro progresso do ser humano, ou seja, a construção de um espaço social no qual a vida possa se desenvolver. “Mais que de máquina, precisamos de humanidade” (Charles Chaplin).
A vontade, seja ela individual ou geral, nos leva a contradizer a segunda afirmação pessimista de Schopenhauer sobre o paradoxo entre vontade e morte. Para isso, não há necessidade de recorrermos às religiões. A própria existência da força vital que nos movimenta e a sensação que possuímos de que ela não combina com a morte-extinção, nos leva a acreditar na morte-transformação. Em outras palavras, para o ser humano consciente da vontade, o fenômeno da morte não pode ser um fim da vida, mas sua metamorfose para um estágio superior ou pleno. Ao mesmo tempo, a realidade da morte faz com que possamos compreender que a vida é ainda para nós, seres humanos, inexplicável.
A compreensão de que ainda não conhecemos todo o sentido do universo deve nos ensinar que temos muito ainda que aprender. “A vida é uma longa lição de humildade” (James M. Barrie). Porém, é a realidade da morte que faz com que possamos nos unir na realidade de seres humanos. Independente de nossas visões religiosas, condição econômica, social ou de nossas vontades individuais, a realidade da morte nos iguala. Se ela é o fim, nos coloca todos em um único plano. Se ela é uma ressurreição, nos dá a todos a mesma chance de transformação. Como afirma um antigo provérbio italiano: “Ao término do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa”.