Regional

Crise na saúde de S. Manuel se agrava

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

São Manuel – A desativação da maternidade do Hospital Casa Pia São Vicente de Paulo, em São Manuel (69 quilômetros a sudeste de Bauru), e a transferência dos partos para o Hospital Sorocabana em Botucatu aprofunda a crise no setor de saúde do município. Desde o dia 1 deste mês, gestantes de São Manuel, Areiópolis e Pratânia estão sendo encaminhadas para Botucatu.

O hospital, de responsabilidade da Casa Pia Vicente de Paulo, faz de 50 a 60 partos por mês, sendo referência para os três municípios. A unidade hospitalar não recebe verbas extras dos governos estadual e federal por não renegociar as dívidas com o INSS e FGTS dos funcionários, estimadas em R$ 1,355 milhões, valores do balancete de setembro de 2004, e ainda não paga o Imposto de Renda. O hospital recebe pelo atendimento via Serviço Único de Saúde (SUS) e as verbas mensais repassadas pelas prefeituras das três cidades que atende.

O diretor clínico e técnico do hospital, o médico Kandir Genésio Innocenti Dinhane, está demissionário desde o dia 1 de janeiro, juntamente com a vice-diretora, Eliana Teefh.

Ontem, ele explicou que permanece no cargo por tempo indeterminado por orientação do Conselho Regional de Medicina (CRM). Ele ressalta que o número de médicos pediatras e de obstetras é insuficiente para preencher a escala de plantões. Dinhane diz que o corpo clínico do hospital conta atualmente com cerca de 25 médicos.

A solução seria a contratação de profissionais de outras cidades, mas as péssimas condições financeiras e administrativas do hospital não permitem a ampliação do quadro clínico. “Para você contratar esses profissionais (médicos plantonistas) existe um valor de mercado e o hospital não tem condições de pagar”, justifica.

O diretor clínico demissionário voltou a defender o fechamento da maternidade, como já havia se manifestado no mês passado, para evitar que o atendimento às gestantes funcione de forma irregular. No começo de 2004, os partos na maternidade do hospital de São Manuel foram interrompidos e o mesmo esquema de locomoção para o Hospital Sorocabana foi implementado.

Entretanto, uma gestante grávida de três meses afirmou ter abortado devido ao atraso de uma hora e meia para conseguir uma ambulância. O episódio marcou porque sugeriu um jogo de empurra entre o Hospital Casa Pia São Vicente de Paulo e a Prefeitura de São Manuel, que se defendeu acusando a unidade hospitalar de demorar para acionar o transporte oferecido pelo município.

Dinhane afirma que este caso não se caracterizou como um atendimento normal de parto, fosse cesária ou normal. “Tenho conhecimento desse caso porque não era uma gestante com a gestação completa. Ela estava praticamente abortando, na altura do segundo ou terceiro mês de gestação”, explica.

Ele acrescenta que a mulher foi encaminhada de São Manuel para o Sorocabana para uma curetagem, procedimento médico necessário após um aborto.

A prefeitura se responsabiliza pelo transporte das gestantes até a maternidade em Botucatu. Dinhane acrescenta que se houver risco da gestante dar à luz no meio do caminho, caberá ao médico de plantão no hospital de São Manuel fazer o parto no Pia São Vicente de Paulo. Mas se houver tempo para o atendimento em Botucatu, a gestante irá acompanhada de uma enfermeira especializada para realizar os primeiros socorros.

Riscos

O diretor clínico ameniza os riscos ao citar que a viagem até Botucatu é de aproximadamente 15 quilômetros, percorridos em 25 minutos pela rodovia Marechal Rondon (SP 300). “É praticamente uma avenida”, argumenta.

Uma portaria do Corem, em vigor desde 1 de janeiro, obriga que os recém-nascidos, inicialmente, passem pelos cuidados de um médico pediatra e não mais apenas nas mãos das enfermeiras.

Diante desta realidade, um novo impasse foi criado no hospital de São Manuel. O prefeito Flávio Massarelli Silva (PSB) disse à reportagem do JC, no dia 24 de janeiro, que os médicos do Hospital Casa Pia São Vicente de Paulo exigiram um valor a mais o que não foi aceito. “Hoje eles já recebem R$ 100,00 por 12 horas de plantão, para ficar em casa. Se preciso, eles têm que estar aqui. Aí, ganha os R$ 100,00 e mais o procedimento”, justifica a negativa ao corpo clínico.

Dinhane afirma que, atualmente, uma cesariana necessita da presença de quatro médicos, o cirurgião, o auxiliar, o anestesista e, agora, o acréscimo do pediatra. Ele não nega que o corpo clínico desejou um valor a mais e entende que os recursos para esta estrutura na maternidade da unidade hospitalar de São Manuel são inviáveis.

Para ele, a crise no hospital vai muito além do fechamento da maternidade. O diretor clínico afirma que o problema é a “dívida do hospital, a omissão da diretoria administrativa e da sociedade como um todo”. Ele ressalta que se reuniu com o prefeito Flávio Massarelli Silva, que teria demonstrado grande empenho para resolver os problemas. A tentativa é de buscar um parcelamento da dívida total que ultrapassa a cifra de R$ 1,6 milhões, conforme dados do balancete de setembro de 2004.

O vereadores de oposição Milton Rosa Lima (PMDB) e Major Rubin (PL) concordam com o prefeito, pelo menos em uma coisa: de que o número de atendimentos feito no hospital é exagerado.

Lima, que fez o requerimento do balancete do hospital no ano passado, entende que é preciso fazer uma auditoria nas contas do hospital. “Se a dívida do hospital, há quatro anos atrás, era de R$ 500 mil. Hoje, ela passa de R$ 1.600 mil. Tá impossível, porque até a maternidade já está fechada”, avalia Lima.

A reportagem do JC tentou fazer contato com José Tomaz, vice-diretor em exercício da presidência do Hospital Casa Pia São Vicente de Paulo. Porém, até o fechamento desta edição Tomaz, não retornou a ligação. O prefeito de São Manuel também não foi encontrado na cidade ontem, pois estaria em São Paulo.

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