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A água começa a ferver


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As críticas do presidente Lula às elites nacionais, de tão recorrentes, se perdem no cipoal das banalidades discursivas presidenciais. E mais: revela a intenção do mandatário-mor de se escudar na sombra de um populismo que se mostra tão extemporâneo quanto obsoleto, principalmente por evocar a velha luta de classes, que nem mais memória recupera nos salões atapetados do PT e adjacências. Que monumental sandice é dizer que as pessoas “do andar de cima” não querem que “os pobres melhorem de vida”. Caprichar no verbo contra “os do andar de cima” tem sido a senha para ganhar aplausos dos que habitam o “andar debaixo” ou atenuar apupos de quem o vê comprometido com as causas dos mais ricos. Não por acaso, joga confetes aos “amigos” do MST, “um dos movimentos mais sérios e mais respeitados do País”, escracha a imprensa por ser dura com o governo e bate forte nos antecessores. Mas a virulência das falas presidenciais tem outro alvo: o projeto de reeleição. (...)

Agora, um exame de dados e fatos. Pesquisa feita pelo Instituto de Economia da Unicamp mostra que as classes médias têm encolhido no País. Só no primeiro ano do governo Lula, os índices de retração foram de 14,6% na classe média alta (renda familiar acima de R$ 5 mil), 6,9% na classe média (renda entre R$ 2,5 mil e R$ 5 mil) e 3,83% na classe média baixa (renda entre R$ 1 mil e R$ 2,5 mil). O baque foi comparável aos tempos perversos do confisco do governo Collor. Sob esse pano de fundo, a administração federal impõe uma medida provisória para castigar o setor de serviços, comprimindo orçamentos de contingentes abrigados nas classes médias. Empresários, trabalhadores, formadores de opinião, núcleos organizados iniciam um mutirão contra a carga tributária, que beira os 40% do PIB.

O centro da quadra poderá atrapalhar as jogadas do candidato à reeleição. Mas ele não percebe. Aos perfis auto-suficientes, envolvidos pela aura da onipotência (o presidente está convencido de que está mudando a agenda mundial), um espelho de Narciso basta. O que Fernando Henrique pretendeu quando pediu que Lula leia mais? Talvez ajudá-lo a entender que a história pode ajudar os governantes a ter mais cuidado. Pequena leitura: a derrama, a cobrança forçada do pagamento mínimo de 100 abonos de ouro pela Coroa portuguesa à colônia, foi o estopim para a Conjuração Mineira, que germinou a independência do Brasil. Ou, ainda, a Revolução Americana (1776-1783) deu-se porque, entre outros motivos, a Inglaterra decidiu cobrar mais impostos, onerando violentamente os colonos. Na Revolução Francesa, injustiças e impostos abusivos funcionaram como alavanca de motins.

Talvez o Lula conheça a lição de um ex-presidente dos EUA, filho de paupérrimos lavradores, Abraham Lincoln, que, um dia, disse: “Não fortalecerás os fracos, enfraquecendo os fortes; não ajudarás os pobres eliminando os ricos; não ajudarás o assalariado, arruinando aqueles que pagam”. A derrama no Brasil contemporâneo confisca parcela dos recursos dos que pagam. O candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva parece impermeável ao arrocho. Do alto de sua impavidez, não percebe que a água começa a entrar em ebulição na panela das classes médias.

O autor, Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor-titular da USP e consultor político

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