Reduzir a prevalência da hanseníase a menos de um caso para cada 10 mil habitantes até dezembro de 2005. Este é um dos compromissos que o Brasil assumiu junto à Organização Mundial de Saúde (OMS) numa aliança internacional firmada em 1999. Nos últimos cinco anos, a incidência média da doença no País esteve estacionada em torno de 4,5 casos por 10 mil, mas o governo acaba de anunciar que o País está mais perto de atingir sua meta.
A novidade causou espanto e até desconfiança no último final de semana durante as comemorações do Dia Mundial de Luta Contra a Hanseníase (último domingo de janeiro).O titular da Secretaria de Vigilâcia Sanitária (SVS) do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, informou que o ano de 2004 foi fechado com a prevalência média de 1,6 caso de hanseníase por 10 mil habitantes.
Até o último dia 14 de janeiro, os dados oficiais indicavam uma prevalência nacional média de 4,5 casos por 10 mil habitantes. Esse índice vinha sendo mantido estável nos últimos cinco ano, segundo o próprio Ministério da Saúde.
Procurado para comentar o assunto, o médico Fernando Monti, um dos diretores do Instituto Lauro de Souza Lima de Bauru, mostrou-se admirado. “Ficamos agradavelmente surpresos com os dados mais recentes, que mostram uma drástica redução na prevalência da hanseníase no País”, observa.
O instituto é uma das entidades diretamente envolvidas no Programa Nacional de Eliminação da Hanseníase. “Nós somos um dos responsáveis pelo monitoramento da eliminação da hanseníase e pela validação do diagnóstico da doença em várias regiões do País”, explica Monti.
Segundo ele, o objetivo da iniciativa é tirar a hanseníase da lista dos chamados problemas de saúde pública. Definiuse, por critérios técnicos, que ao conseguir reduzir a prevalência a menos de um caso para cada 10 mil habitantes, o País consegue manter sob controle os níveis de transmissão da patologia.
“Isso seria um grande salto para a saúde pública, mas, ao contrário do que muitos entendem, ainda estaríamos longe da erradicação. Até hoje, hoje, a única doença que conseguimos erradicar de fato do planeta foi a varíola. A pólio é outra candidata a desaparecer graças à vacina, mas isso ainda deve demorar alguns bons anos. O que queremos com a hanseníase é controlar sua disseminação”, esclarece.
Mesmo com o anúncio de uma redução importante na média nacional, a doença ainda exigirá muitos anos trabalho, pois em algumas regiões do País, a hanseníase ainda é considerada hiperendêmica.
Além disso, do total de brasileiros contaminados, cerca de 4 mil pacientes são crianças.
Segundo Barbosa, a transmissão ocorre predominantemente dentro de casa, por um adulto que não recebeu o diagnóstico precoce. “Cada caso em criança é um sinal de alerta para que toda a família e seus vizinhos sejam examinados e tratados”, reforça.
Ações
De acordo com o médico Fernando Monti, o controle da hanseníase depende de diversas frentes de atuação. A primeira delas é a descentralização do atendimento, com o aparelhamento adequado dos serviços de saúde.
“Precisamos ter profissionais treinados e capacitados para suspeitar, diagnosticar e tratar a doença em cada um dos milhares de postos de saúde espalhados pelo País”, afirma. Nas regiões mais pobres do Brasil, esse atendimento só é feito nas unidades especializadas das cidades maiores.
A segunda medida está voltada para a educação e conscientização da sociedade sobre sinais, sintomas, tratamento e importância do diagnóstico precoce. Nesse sentido, o Ministério da Saúde deu um grande salto quando veiculou uma campanha publicitária no ano passado.
“A hanseníase é uma doença cujo controle depende do tratamento. Com dois a três dias de medicamentos, a pessoa já deixa de transmitir o bacilo. Por isso, quanto mais cedo se faz o diagnóstico, mais rápido se interrompe a cadeia de transmissão. A partir daí, é preciso que o paciente siga o tratamento ininterruptamente até o fim (por seis meses a dois anos, conforme o caso), para que ela não volte”, completa Monti.