Cerca de um mês antes do início das aulas, a pequena Ariel Yasmin de Souza Aguilera, 6 anos, já estava perguntando para a mãe quantos dias faltavam para ir à escola. Na semana que precedeu o retorno, a expectativa se acentuou e, no grande dia então, tudo ganhou intensidade.
Material e uniforme novos e a promessa de fazer amigos inspiraram Ariel a preparar tudo nos mínimos detalhes, inclusive o visual do cabelo - diante do espelho e dos olhos atentos da avó.
Já no corredor da escola, em procura de sua classe, o coração da pequena batia acelerado “Vai mudar muita coisa”, dizia ela, visivelmente ansiosa.
O primeiro dia de aula, segundo estudantes consultados pelo JC, normalmente costuma gerar aquele tradicional friozinho na barriga. Mas dependendo da série que se vai cursar, o desafio emocional aumenta.
No primeiro ano do ensino fundamental, por exemplo, a criança tem de abandonar a figura protetora da “tia” da pré-escola para ganhar nova professora, provas, disciplinas, horários rígidos e mais responsabilidades, como o aumento do número de tarefas.
“Hoje, no primeiro dia, têm crianças que nem dormiram, chegaram a dormir só duas ou três horas. A ansiedade é grande. O emocional deles fica bem abalado”, diz a professora de ensino fundamental Ângela Perroca, 35 anos, destacando que esse sentimento persiste durante a primeira semana de aula.
“Depois que eles vêem qual é a rotina, quem serão os professores e os colegas, vão acalmando gradativamente”, completa.
Também na 5.ª série, a realidade do ensino muda para os estudantes, com a divisão das aulas em várias disciplinas e uma quantidade bem maior de provas e cobranças.
Numa enquete realizada com alunos de uma classe de 5.ª série de um colégio particular de Bauru, os sintomas mais apontados da famosa “síndrome do primeiro dia de aula” foram insônia, insegurança, vergonha e ansiedade - expressa, sobretudo, pelo já mencionado friozinho na barriga.
Devido à insegurança, o aluno Andrei Brunhari Martinez, 10 anos, disse que só conseguiu cochilar por volta das 6h, quando o sol já batia na janela.
“Na 5.ª série vai ter prova toda a semana. Eu também tive medo de não encontrar alguém conhecido”, confessa o estudante, justificando o motivo da insônia. “Quando eu estava chegando, fiquei com frio na barriga, na espinha, arrepiei inteiro”, completa.
Na escola em que trabalha, a professora de redação Zélia Maria Mendonça Lopes, 40 anos, afirma que os educadores preparam atividades especiais, como dinâmicas de grupo, para contornar a ansiedade dos alunos.
“A nossa preocupação não é trabalhar conteúdo. Nós não passamos calendário de provas na primeira semana. Ninguém fala naquele conteúdo rígido. Porque a preocupação deles é com provas, trabalhos, a insegurança de não conseguir corresponder a tudo aquilo que o ensino fundamental está exigindo deles”, diz a professora.
Nova escola
Para os alunos que vêm de outra escola, a “síndrome do primeiro dia de aula” costuma ser mais violenta. Isso porque é necessário se adaptar ao sistema de ensino do colégio, aos novos professores e companheiros de turma. A falta de domínio do espaço também gera insegurança, segundo a professora Maria Mendonça. “Alguns alunos têm medo de se perder dentro do prédio, de não encontrar o banheiro”, exemplifica.
A estudante Karen Letícia Caetano, 10 anos, que começou a estudar neste ano em uma nova escola, apresentava na última segunda-feira um grau de tensão aparentemente acima da média. “Eu estou com vergonha, estou tremendo e as minhas mãos estão geladas”, confessa.
Seu nervosismo, segundo ela, foi motivado sobretudo pela insegurança de não fazer amizades. “Eu sinto medo de rirem de mim”, completa.
A professora de ensino fundamental Ângela Perroca afirma que o nervosismo nos primeiros dias de aula é normal. Ela recomenda aos pais que tentem tranqüilizar as crianças e não demonstrar maior ansiedade.
“Tem pais que são mais ansiosos do que as próprias crianças. Alguns chegam a ficar no colégio nos primeiros dias de aula e isso não é bom para a criança”, destaca.
As escolas particulares de Bauru iniciaram o ano letivo no último dia 31. Já os estudantes da rede municipal e estadual de ensino retornam às aulas apenas no próximo dia 14.
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Lágrimas e timidez
O primeiro dia de aula não foi somente um momento difícil para o pequeno Rafael, 6 anos, como também para a sua mãe, Michelle Ribeiro Bastos Saito, 28 anos.
Chorando, Rafael insistiu para que ela ficasse por perto. E foi o que Michelle fez.
“Ele me abraçava, começou a chorar, não queria que eu fosse embora. Eu expliquei que os amiguinhos dele estavam aí, mas não teve jeito. Cada vez que eu falava que ia embora, ele me agarrava e pedia para ficar”, diz.
Rafael, que começou a cursar a 1.ª série do ensino fundamental, veio de outra escola bem menor do que a atual, onde tinha contato direto com uma única professora. Até o caminho para o colégio, segundo Michelle, o menino estava reagindo bem, mas quando chegou no portão... “Ele começou a dizer que estava com vergonha, que não iria querer ficar e aí teve início o rebuliço”, descreve a mãe.
Resumo da ópera: De salto alto, Michelle ficou na porta da sala de aula e chegou a acompanhar o filho até nas atividades mais inesperadas dentro do colégio, como a aula de karatê. Depois de duas horas, conseguiu convencê-lo da necessidade de ir embora. “Eu pedi para a professora me ligar se tivesse algum problema”, conta a mãe, que acreditava ter de acompanhar o filho, diariamente, durante a primeira semana de aula.
No final da tarde, durante a saída do colégio, Rafael já não chorava, mas correu para os braços da mãe, querendo compensar aquele dia fatídico.
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(Re)encontro
Apesar dos nervos à flor da pele, o início das aulas também é motivo de alegria. O encontro de novos amigos ou o reencontro com personagens da antiga turma é apontado por grande parte dos alunos como um fator motivador para dizer adeus às férias e se adaptar novamente às responsabilidades do mundo escolar.
“Eu quero fazer amigos novos”, destacava Gabriel Pereira, 6 anos, enquanto se preparava, na última segunda-feira, para ir à escola.
Passado o impacto inicial, já na saída do primeiro dia de aula, a pequena Ariel Yasmin de Souza Aguilera, 6 anos, mostrou-se eufórica com as primeiras horas de experiência na 1.ª série do ensino fundamental. O carisma da nova professora, as aulas de arte e educação física e seu novo amigo, o Gabriel, contribuíram para isso. “Passou o nervoso. Amanhã vai ser mais fácil”, concluiu.