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Embaixador do Maracanã vive em Bauru

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Quem visitou o maior estádio de futebol do mundo, com certeza conhece Isaias Ambrósio, 78 anos. Pessoalmente ou pelo nome gravado na primeira placa de entrada do Maracanã, Rio de Janeiro. O relações públicas conhecido no mundo todo, é o ‘camisa 9’ na lista dos funcionários. Ele acompanhou a construção do estádio e durante 30 anos recebeu visitantes das mais diversas partes do continente.

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Sinatra e rainha Elizabeth II

A experiência de Ambrósio com a visita do cantor Frank Sinatra não foi das melhores. “Ele não quis ninguém perto dele. Nem mesmo a polícia. O Maracanã foi todo decorado para o show dele. Uma grande estrela no meio do estádio foi construída. Em cada ponta dela havia um microfone. Ele cantou e dançou em todas as pontas para satisfazer o público, porém não foi simpático.”

Opinião contrária, ele teve da rainha Elizabeth II. “Sua majestade, a rainha Elizabeth II, foi conhecer o Maracanã. Andamos juntos por toda parte. Ela era muito simpática. Não fazia distinção de ninguém. E assim foi com outras autoridades.”

Em seu currículo, ele acumula a visita ao Maracanã da rainha Elizabeth II da Inglaterra, a imperatriz do Irã, Farah Diba, os cantores Paul McCartney, Michael Jackson, Tina Turner dentre outros. Com eles, ele percorreu gramados e arquibancadas do estádio que continua a atrair visitantes.

Ambrósio, que hoje vive no Núcleo Mary Dota também conviveu com Roberto Dinamite, Romário, Pelé, Garrincha e Didi, craques consagrados do futebol brasileiro.

Com sua fala mansa, pausada e com um português impecável, o homem que saiu de Pirajuí, morou em Bauru e foi para o Rio de Janeiro na década de 40, se sente um vitorioso. “Para quem tem uma epiderme negra, como eu, eu venci. Comecei como vigilante da construção e cheguei a representar o Brasil, em Montevidéu, na inauguração da Praça Maracanã. Lá fui recebido com honras de chefe de Estado.”

Modesto, o embaixador do Maracanã, título recebido por ele na Capital carioca, lembra que recém-chegado de São Paulo, foi convidado a trabalhar na construção do estádio. “Me deram o cargo de vigilante. Passei, em pouco tempo, a ser guia das pessoas que queriam ver a obra, gente do Uruguai, Paraguai e Argentina.”

Na década de 50 ele era ascensorista quando começou o campeonato mundial. “Como ascensorista, eu contava a história da construção. Como eu conhecia todas as partes do estádio, em 1960, a administração do Maracanã me promoveu a guia turístico”. Na nova função, ele colecionou títulos, prêmios e reportagens sobre sua história que se confunde com a do estádio.

Sua passagem pelo Maracanã lhe rendeu muitos aprendizados, é um autodidata. Aprendeu a falar francês, espanhol e italiano sozinho. “Eu ouvia os estrangeiros conversando e aprendi a falar. Só não falo inglês.”

Casos de assombração

Conversar com Ambrósio é abrir o livro da história do estádio, literalmente. Ele conhece tudo sobre o Maracanã e não guarda segredos. “Tem milhares de histórias, mas algumas são de arrepiar. Durante muito tempo, nós, funcionários, convivemos com assombrações”, conta.

Hoje, os ‘casos’, segundo ele, causam risos. “Em uma noite, depois que o estádio já estava vazio, eu entrei para verificar se tudo estava conforme tinha que ficar. Na rampa, vi vários fradinhos, crianças com roupas de frades, rodando de um lado para outro. Achei bonito e fui chamar meus companheiros para ver. Ninguém conseguiu, porque os fradinhos desapareceram.”

Outro caso que marcou a história do relações públicas aconteceu numa noite após um jogo. “Eu fazia bico de varredor para ganhar um pouco mais. Quando o estádio já estava todo limpo e eu e meus companheiros estávamos no alojamento, começamos a ouvir vozes que vinham de todos os lados. Pensamos que talvez tivesse entrado alguém e corremos para ver. Não havia ninguém. Mas, do alojamento, ouvíamos as conversas.”

No caminho do portão 18 para a geral, que fica na rua Mata Machado, os varredores do estádio teriam sido seguidos por assombrações, relembra o embaixador. “Estávamos caminhando e sentimos que alguém caminhava atrás. Olhamos e não vimos ninguém. Tratamos de correr.”

Presentes valiosos

O jeito de ser de Ambrósio cativou muitos visitantes do estádio que faziam questão de presenteá-lo por isso. “Ganhei muitos presentes. A maioria deles vinha dentro de um envelope. Eram quantias significativas para a época e em moeda americana”.

Desta época, ele guarda, com carinho, uma nota do Iraque que fica em sua carteira. “Fui convidado a visitar a Alemanha, Itália, Turquia, mas foi no Uruguai que tive tratamento de chefe de Estado. Fui representando o Brasil na inauguração da Praça Maracanã, em Montevidéu.”

O embaixador também teve boas impressões do Chile. “O mais interessante é que eu não via um negro na rua. Determinado dia, vi um andando e fui logo falando com ele. Ele era embaixador.”

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