Cantam-se nesta terça-feira gorda as últimas melodias do álbum carnavalesco, volumoso como o simpático rei momo, criado nos primeiros tempos da grande folia para suas andanças iniciais na terra em um reinado ininterruptamente longo, a partir de quando o mundo é mundo, e, por isso, sempre acontecendo na festança entoando aquele seu “oi, abram alas que eu quero passar...” Não se pense, porém, que as festas de carnaval sejam invenção das primeiras manifestações da alegria e descontração dos povos no universo todo. Então, agora, depois de uma semana esfusiante como a que está passando, vão as coloridas e artísticas fantasias fixar-se no fundo das saudades dos foliões, recolhidos que serão aos baús, maletas e guarda-roupas, onde permanecerão por todo este novo ano diante dos olhos marejados de seus donos e suas donas, evocando as roupas masculinas e também as femininas, como tapa-sexos, bustiês, sutiãs minúsculos, etc, largamente exibidos, sem cerimônias, nos desfiles e bailes, tentando vestir a nudez das espécies.
Não se terá mais, então, nos próximos 365 dias de cada ano, a algazarra que ora acontece nas avenidas, ruas, jardins, clubes e demais organizações sociais. O silêncio voltará a imperar, dispondo expressamente as populações para o trabalho diuturno e outras atividades humanas, ou seja, o ganha-pão ao que lhe faltará para pagar os débitos contraídos durante a desmedida farra da semana momesca. Ter-se-á a vida reassumindo tudo o que possuía nos passados dias, sem quaisquer enfeites, aqueles que mudam a cara e a conduta das pessoas, como faz a natureza, diariamente, com o seu Sol, sua Lua, suas nuvens, suas chuvas, suas calmarias e assim sucessivamente, razão pela qual se acaba até perguntando a real e verídica motivação do velho entrudo, como nasceu, por que veio ao mundo e por que se vai conservando indissoluvelmente sobre a face indefesa da terra como os problemas, graves ou gravíssimos, que realmente possui, gerados pela insensatez de outros foliões chamados homens e mulheres! E, igualmente, há-de se perguntar quem deu o primeiro grito momesco e que consonância possa ele para continuar sendo repetido através dos tempos, sem motivações outras que, simplesmente, despertar a alegria produtora do sorriso até de tristonhos e deprimidos.
Pelo sim e pelo não, dê-se enfim ao Carnaval a força do prazer da alforria que ele proporcionou e continua proporcionando no espírito humano que, conseqüentemente, sai por aí cantando: “Rasguei a minha fantasia feita de laços, cores e balão... Rasguei a minha fantasia, guardei os risos no meu coração”... (O autor, Nadyr Nerra, é o jornalista responsável do JC, delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado). “Há sempre uma noite escura para cada amanhecer. E, na pequena-grande ventura do nascer, existir e morrer, muitas lições de vida se tem de aprender”.