Tribuna do Leitor

Plantando confusões


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Se você não quiser endoidar de vez, não leia os livros de Dan Brown, no momento ocupando a lista dos mais vendidos: Anjos e Demônios e O Código da Vinci. Essas obras, ora enfocando ficção, ora fatos históricos, mexem com a cabeça dos desavisados, que acabam num labirinto, sem saber onde termina o imaginário e onde começa a realidade. Mas se gosta de mistérios, vá em frente!

Em Anjos e Demônios (AeD), escrito antes do Código da Vinci (CDV), o autor afirma: “Não há nada pior do que um historiador entusiasmado demais.” É verdade! Em lugar de “historiador”, se usarmos a palavra “escritor”, assentar-se-á como um sapato bem moldado para um pé do tamanho exato de Dan Brown. Embevecido com as próprias tramas, deixa-se enredar nelas e põe o leitor numa roda de problemas impenetráveis.

Entre as questões menores, está, por exemplo, em AeD, a santificação de Santa Teresa, depois de afirmar que um anjo lhe fizera beatífica visita durante o sono. Brown defende a teoria de que o encontro teria sido mais sexual do que espiritual. E tenta comprovar sua posição com palavras da própria santa: “sua grande dança dourada... cheia de fogo... penetrou em mim várias vezes... até minhas entranhas... uma doçura tão extrema que se desejaria que nunca acabasse.”

O CDV, mais que AeD, deu margem ao aparecimento de uma enxurrada de livros, tentando explicar, ora justificando, ora negando, algumas afirmações de Dan Brown. De todos esses livros posteriores que tivemos oportunidade de ler, o mais consistente pareceu-nos Os Segredos do Código, de Dan Burstein. Aqui, renomados cientistas, teólogos, filósofos e historiadores se propõem a dar respostas para inúmeras questões levantadas por Brown: Jesus foi mesmo casado com Madalena? Tiveram filhos? Terá Leonardo da Vinci inserido mensagens secretas em suas obras? Os Evangelhos gnósticos são dignos de crédito? É fato que os pais da Igreja caluniaram Madalena para suprimir o papel da mulher nos primórdios do cristianismo?

Pode-se afirmar que Dan Brown acertou em cheio na fórmula para fazer sucesso: assassinatos, códigos, anagramas e símbolos intrigantes, supostos envolvimentos religiosos com embustes e politicagens, uma pitada de romance - eis tudo o que se precisa para fazer um livro explodir nas prateleiras!

Poderíamos aplicar, às duas obras de Brown, o que disse Burstein: são dois livros para se desfrutar. E parte desse desfrute é seguir suas idéias e fios da discussão, rastrear suas inter-relações. São fascinantes obras de ficção, construídas com partículas de fatos pouco conhecidos e estimulantes, ainda que fortemente especulativos. É essencialmente isso. (Dra. Maria da Glória De Rosa)

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