Cultura

Músicos de computador

Diego Molina
| Tempo de leitura: 5 min

Se na tradição do rock’n’roll as bandas surgem nas garagens, com a tecnologia atual, as músicas que vão para a Internet e são gravadas em CDs saem mesmo dos computadores caseiros. Com o fácil acesso a softwares de gravação, edição e mixagem de áudio, é cada vez maior o número de músicos independentes que investem na montagem de home studios, ou estúdios caseiros.

Em muitos casos, os estúdios são montados dentro do quarto dos músicos, ao lado do computador. Com uma boa placa de som, os instrumentos são amplificados com microfones plugados a uma mesa de som ou diretamente ao hardware. Os principais programas, facilmente encontrados na Internet, são o Sound Forge, Cake Walk, Sonic Foundry, Vegas PRO, Acid, Fruit Loops e o ProTools, utilizado em estúdios profissionais. As músicas finalizadas impressionam pela qualidade.

De acordo com o técnico e “misturador de som” Kaue Moraes, a qualidade das gravações caseiras depende especialmente da captura de som nos instrumentos. “Se você tem um bom microfone, um bom jogo de cabos, bons plugs, tudo isso dá uma grande diferença no som. O uso de diferentes microfones também dá qualidade”, orienta.

Moraes começou a trabalhar com gravação e edição de som há cerca de seis anos, na antiga república Samacô, onde nasceu a banda Mercado de Peixe. O tecladista do grupo, Fernando TRZ Falcoski, relembra que as primeiras experimentações com o computador e os programas foram realizadas justamente para que eles pudessem aprender a trabalhar no home studio.

“Investimos em um PC com o mínimo necessário para trabalhar. Alguns amigos nos trouxeram os softwares e começamos a estudar na raça, fuçando mesmo. Tínhamos muitas idéias e começamos a fazer as gravações caseiras a partir daí”, relata.

Ele assume que, no começo, as músicas não tinham boa qualidade de áudio e mixagem. “Mexendo nos programas, fomos descobrindo os recursos, os plug-ins (softwares adicionais) e os macetes para ganhar qualidade. Também fomos adicionando equipamentos externos, como racks de compressão e de efeitos. Com certeza, nossas produções atuais são muito superiores às de seis anos atrás e têm uma qualidade próxima ao que está no mercado de música”, aponta o tecladista.

De acordo com Fernando, um dos principais problemas ainda existentes nos home studios é a baixa qualidade de masterização nos softwares amadores disponíveis. “A tecnologia facilita a vida de quem está na garagem, porque o pessoal produz um material de qualidade e pode divulgar seu trabalho. Em relação às fitas-demo, é um avanço gigante. Mas ideal mesmo seria você gravar tudo e depois masterizar com um profissional, porque dá um diferencial enorme. Se a banda tem condição, é uma vantagem”, indica.

Aprender fazendo

A banda bauruense Move Over realizou a pré-produção do seu primeiro CD, que deve ser lançado no próximo, totalmente em um home studio montado na casa do baixista, Rafel Gomes. O baterista do grupo, Leandro Tenório, relata que além do computador com uma boa placa de som, foi utilizada uma mesa de seis canais e quatro microfones.

“Fizemos uma guia, com voz e violão, e fomos adicionando os instrumentos. Usamos um metrônomo, para marcar o tempo, e fomos eliminando a guia e encaixando o microfone. Fizemos tudo muito rápido, com microfones de qualidade média, mas ainda assim, tivemos uma boa qualidade”, comenta Tenório.

Ele destaca que os programas, em sua maioria, são de fácil operação por apresentarem o áudio dos instrumentos gravados com tempo e gráficos. “Os gráficos dão a idéia se não há nada saturado ou se o som não está estourando, é possível controlar tudo isso. Depois, usamos o Sound Forge para dar volume, e o CD fica com volume semelhante a um profissional”, afirma.

Alma

Na opinião de Moraes, o único inconveniente nos estúdios caseiros é a impossibilidade de gravação das músicas com a banda tocando ao mesmo tempo. “Em estúdio, você grava em pelo menos seis canais simultâneos, grava a bateria completa e mais baixo e guitarra. O som fica realmente melhor, porque o equipamento possibilita o pulso da música ser mais natural. A coisa toda fica com mais alma”, descreve.

Por outro lado, ele ressalta a boa qualidade obtida em programas e gravações caseiras, que não deixam a desejar especialmente com a utilização de bons softwares e com um mínimo de experiência. â€œÉ um grande diferencial na qualidade, não é aquele CD demo com o som gravado na garagem. O produto final pode cair numa rádio para tocar, tem qualidade suficiente para isso”, aponta.

Para o músico Fernando TRZ, a maior dificuldade para as bandas independentes é a distribuição dos CDs finalizados, mas a Internet e o mercado vêm se abrindo para os músicos. “Com a tecnologia, você consegue um produto final independente, e pode divulgar pela Internet ou fazendo CD-Rs. Muitas produções têm mais qualidade do que CDs de gravadoras. Acredito que a tecnologia e o mercado emergente de música independente estão abrindo esse espaço”, conclui.

Coletânea de hip hop foi gravada em home studio

Os home studios não são apenas instrumentos das bandas de rock para produzir suas músicas. Em Bauru, nove grupos de hip hop gravaram as músicas no estúdio caseiro da república Samacô, e o produto final foi o CD “Hip Hop Sem Limites”, projeto da organização não-governamental (ONG) Quilombo do Interior, lançado há dois anos.

O presidente da ONG, Renato Magu, conta que as gravações em home studios possibilitaram maior liberdade para os grupos. “Todo mundo chegou sabendo o que queria e o Tristeza (Fernando TRZ) deu muita liberdade para cada um experimentar. A produção surpreendeu pelos equipamentos ninguém imaginava que a qualidade final seria tão satisfatória”, comenta.

Atualmente no grupo D Quebra, Magu aposta nos estúdios e iniciativas caseiras como o futuro - ou o presente - da música independente nacional. “A produção de um CD fica mais barata, você paga menos e tem uma qualidade ótima, além da liberdade que o músico tem para criar, sem aquela pressão e influência de um selo ou uma gravadora. Todo mundo aprende junto e o resultado é surpreendente”, frisa o rapper.

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