Atravessando uma onda de rebeliões e greve na Capital, a Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem) registrou ontem a mais grave ocorrência na unidade de Bauru desde a sua inauguração, há três anos. Jonatan Bueno Garcia, de 17 anos, foi morto no início da manhã por colegas, a golpes de um objeto pontiagudo (uma faca improvisada), na Unidade de Internação da instituição.
Outros três internos foram agredidos - um deles está internado em estado regular no Hospital de Base e os outros dois sofreram ferimentos leves. A direção da Febem anunciou que vai abrir sindicância para apurar o caso. Até o final da tarde de ontem, a instituição não havia identificado o autor ou autores da morte e das agressões. Também não havia previsão de transferência de nenhum dos adolescentes.
A primeira morte de adolescente na Febem de Bauru ocorreu em um momento de tensão na instituição, motivada pela demissão de 1.751 funcionários em quatro unidades da Capital, o que desencadeou uma greve. Em protesto, o sindicato da categoria tenta estender a paralisação para o Interior. Anteontem, sindicalistas visitaram a unidade de Bauru tentando organizar o movimento grevista, mas a direção da Febem garantiu que não houve adesão ao movimento. No Estado, o sindicato informa que 60% dos funcionários estão em greve.
A assessoria de imprensa da Febem afirma que, até ontem, as demissões em unidades do Interior do Estado estavam descartadas. No total, a instituição possui 8.700 funcionários distribuídos em 77 unidades, que abrigam cerca de 6 mil internos.
Conforme registrado na polícia, Jonatan Bueno Garcia, que estava na Febem de Bauru há dois meses, foi morto durante uma briga entre internos, por volta das 6h30 de ontem. A briga teria sido uma continuação de uma discussão iniciada anteontem à noite. A assessoria de imprensa da Febem não informou a infração cometida pelo adolescente, mas a família diz que ele estava internado por roubo.
O delegado interino da Delegacia da Infância e Juventude (Diju), Ronaldo Divino, informou que a briga ocorreu quando os pavilhões que abrigam os menores foram abertos para o café da manhã. “Quando foram abertas as trancas, cerca de 27 adolescentes invadiram o quarto e passaram a agredir os quatro menores”, explica o tenente William Carlos Padovini, comandante da Base Sudeste da Polícia Militar, que atendeu a ocorrência.
Segundo um funcionário da Febem que não quis se identificar, agentes de segurança da unidade tentaram conter os agressores, mas não conseguiram evitar as agressões devido ao grande tumulto. Dois dos quatro adolescentes agredidos - um de 17 e outro de 16 anos - sofreram perfurações graves e foram socorridos pela Unidade Resgate do Corpo de Bombeiros.
O mais velho, Jonatan, não resistiu aos ferimentos e morreu antes de chegar ao Pronto-Socorro Central. O mais novo permanecia internado em estado regular no Hospital de Base até o fechamento desta edição. Os outros dois menores que estavam no mesmo quarto conseguiram escapar e sofreram escoriações leves pelo corpo.
O diretor da Febem de Bauru, coronel aposentado Cid Monteiro de Barros, afirma que o fato ocorrido ontem foi atípico e que os menores foram vistoriados. “Foi um desentendimento entre eles. Está tranqüilo agora. Não tem problema nenhum. A atividade voltou ao normal na casa”, diz.
Investigações
Um objeto de madeira pontiagudo, encontrado no pavilhão onde Jonatan Bueno Garcia e outros três adolescentes foram agredidos, foi apreendida. A arma improvisada foi encaminhada à Delegacia da Infância e Juventude (Diju), que vai ouvir os adolescentes envolvidos no caso para apurar as causas da morte e das agressões.
“O que foi apurado até agora é que houve uma briga entre eles. Vamos noticiar a Febem para que eles informem quem eram os menores que estavam naquela ala onde foi a briga”, aponta o delegado Ronaldo Divino, que responde interinamente pela Diju.
O corpo de Jonatan foi levado ao Instituto Médico Legal (IML) para apontar que tipo de instrumento causou a morte. O resultado do laudo deve sair em dez dias. A Corregedoria da Febem instaurou sindicância para apurar o caso. O processo corre em sigilo e o parecer final será divulgado no Diário Oficial, segundo a assessoria de imprensa da instituição.
A Febem de Bauru foi inaugurada em fevereiro de 2002, sob protesto de parte dos moradores do Núcleo Geisel. Concebida como uma unidade-modelo, os internos seriam ressocializados com atividades multidisciplinares, equipe educativa e ausência de violência. No entanto, diversas fugas em massa, rebeliões e tumultos já foram registrados na unidade.