Decididamente, o Lula perdeu a oportunidade de usar os “20 anos de espera” para melhorar um pouquinho só sua capacidade de raciocinar. Ele padece de uma patologia que poderia ser chamada de “síndrome da baleia encalhada”. Veja-se:
Pouco a ciência consegue explicar sobre o porquê das baleias encalharem-se nas praias. Não se sabe se elas são levadas àquela situação por idiotia própria, por engano de navegação ou por algum tipo de indução externa às suas vontades. Ela simplesmente nada para a praia e fica lá, debatendo-se até a exaustão tentando convencer a multidão de que é capaz de vencer sozinha sua insólita luta, enquanto admiram seu esforço pessoal. Enquanto a idolatram, torcem efusivamente para que ela consiga se safar. Por outro lado, existe uma multidão que sabe que aquele tipo de situação não prospera e, por mais que a baleia se debata, a chance dela ter sucesso é muito pequena.
Vez ou outra, alguns tentam socorrê-la, pois quanto mais ela se debate, mais ela se afunda na areia que a cerca. Ficam tentando “consertar” os desatinos, já que ela não percebe que seus “improvisos” para sair da areia é que mais a mandam para baixo. Os amigos eventuais ficam puxando, cavando em volta, tentando rebocar e salvar algo que, desde o início do encalhe, já estava fadado à morte quase certa.
Uma baleia encalhada é uma instituição, não um acontecimento natural. Comove multidões e deixa marcas na alma de quem vê a luta do infeliz cetáceo. Mas, bem ou mal, ela escolheu seu destino e algum tempo depois, provavelmente, a verdade se revelará: ela nunca deveria ter nadado até a praia.
Por falar em baleia, enquanto Lula lê os discursos redigidos, ensaiados e decorados, tudo vai bem; o problema é quando ele cede à tentação do improviso, talvez movido pelos discursos inflamados e insossos do tempo de metalúrgico. É nesse momento que a casa cai.
Classifico como risível a tentativa de todos os escalões do governo em remendar a última (e creio mais recente) declaração do Lula, quando afirmou que um “companheiro” confidenciou-lhe altas tramóias e corrupções do governo antecessor. Justo ele, o chefe da nação, permite-se deslizes como se fosse uma pessoa comum, mas não o é. Espera-se de um presidente da República discernimento suficiente para escolher as palavras, já que todos os holofotes nacionais e internacionais estão voltados aos seus pensamentos e palavras.
O Lula não podia mais ser metalúrgico ou sindicalista, não podia mais ser partidário. O Lula deveria ser, em verdade, presidente de um país, responsável e atento às suas declarações não perante as siglas partidárias, mas objetivando os resultados cruciais de interesse nacional, especialmente se – e quando – isso envolvesse escândalos de interesse público. Mas, considerando que essa “baleia” já encalhou diversas vezes por nosso litoral, resta-nos apenas torcer para que os socorristas mais uma vez a lancem ao mar. Quem sabe um dia ela aprenda a não se arremeter contra a sua natureza pueril e fique em alto mar, distante, que é de onde nunca deveria ter saído.(Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)