Politicando

Os sintomas reveladores


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Data de eleição ainda muito longe. Os eleitores, com outras preocupações do dia a dia, nem imaginam que já tem gente pensando na longínqua data e conversando, articulando e cogitando de nomes, da densidade política deles, de qualidades e defeitos muito bem avaliados.

A mesa do bar, sempre ao fim da tarde e começo da noite, constitui o foro adequado para as tratativas. Ali, entre um e outro gole e enquanto se mastigam torresminhos crocantes feitos na hora e outros acepipes, nomes de eventuais e possíveis candidatos são sugeridos, lançados, avaliados e queimados, ou, pelo menos, fritos como o torresminho, num procedimento mais ou menos uniforme.

Lança-se à mesa, por sugestão de qualquer um, determinado nome. Enumeram-se qualidades, destaca-se sua vida comunitária e mensura-se sua receptividade e penetração social, tudo nesse primeiro momento com o vento totalmente a favor. Na seqüência brotam os inevitáveis defeitos, as deficiências pessoais que visualizariam dificuldades junto aos eleitores, lançados à mesa todos os “entretantos e poréns” que estancam potenciais candidaturas, abatidas ainda no ninho. Um rápido linchamento, rodada a rodada de conversações. sempre na mesma mesa. Do mesmo bar. Nos finais de tarde.

Certo dia, surge determinado nome. Bem conhecido, com traços de liderança e com expressivo currículo de realizações. Bom peso social e comunitário. Até ali excelente perfil político-eleitoral. Entretanto, quase que imediatamente firmou-se consenso quanto a seus defeitos. Arrogante, anda de nariz empinado. Parece que tem o rei na barriga. Pode até não ser, mas aparenta superioridade irritante que afasta os prováveis eleitores. Não era bom nome. E nem era bom de voto. Certamente não daria certo.

Silêncio. Alguns goles e meia dúzia de mastigadas. E veio a defesa, isolada.

- Tenho observado muito e vi mudanças de atitudes e comportamento muito sintomáticas que mostram que ele, realmente, não só é bom candidato como aparenta ter interesse na sua candidatura. - Não acredito. É o mesmo de sempre, arrogante e com o rei na barriga.

- Equívoco seu. Sou quase vizinho. Tenho acompanhado quando ele sai de casa e vou observando discretamente sua caminhada. Não tem deixado ninguém sem atenção. Os cachorros, até mesmo desconhecidos e inexpressivos vira-latas, recebem um afagozinho ou assobio simpático, acompanhado do estalar de dedos. A estátua do barão do Rio Branco fincada heroicamente na praça principal sempre recebe um aceno reverente de cabeça. Nem poste escapa de cumprimento afável. É “bomdiazinho” pra cá, “bomdiazinho” pra lá. Isto é típico sintoma de próxima candidatura. Não tem erro!... (contada por José Fernando da Silva Lopes)

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