Melhorou a comunicação do Banco Central... A Ata da última reunião do Copom (que produziu a sétima alta de juros consecutiva) está um pouco mais amena, sua linguagem é mais tranqüila e abandonou de fato o tom de ameaça terrorista das atas anteriores. A mudança de enfoque mais interessante é no tratamento das questões relativas ao crescimento da economia. O problema da oferta global é tratado com mais inteligência e cuidado, relativizando o papel do nível de utilização da capacidade industrial. Há o reconhecimento que essa capacidade também se encontra em expansão, juntamente com o investimento. Finalmente se abandona a mitologia do teto de 3,5% de crescimento do PIB. Também na avaliação dos riscos externos o tratamento é objetivo e sua conclusão parece justificada: “O Copom continua atribuindo baixa probabilidade a um cenário de deterioração significativa nos mercados financeiros internacionais em função de mudanças abruptas na condução da política monetária norte-americanaâ€.
Mais adiante e apesar de fazer algum mistério, o texto dá a impressão que finalmente o Banco Central vai flexibilizar o período de verificação da meta inflacionária, o que é uma exigência antiga e de bom senso. Há um parágrafo mostrando que está analisando os dados com um pouco mais de cuidado, ultrapassando o horizonte rígido de doze meses do calendário gregoriano, o que será um avanço extraordinário e deve permitir melhorar a qualidade de administração da política monetária. Lê-se no parágrafo 26 que “o Copom também considerou as projeções de inflação para horizontes situados entre dezembro de 2005 e dezembro de 2006 e mais os períodos de 12 meses que se encerram em março, junho e setembro de 2006. Trata-se de horizontes cujos resultados serão mais sensíveis às decisões correntes de política monetária do que os do ano calendário de 2005, sendo ao mesmo tempo períodos cobertos por projeções de inflação mais confiáveis do que as já disponíveis para o ano calendário de 2006â€.
Apesar da linguagem “bancocentralêsâ€, há o que comemorar!
Para terminar, um pequeno mistério: de que fonte a Ata do Copom extraiu a certeza de que não haverá aumento de preços dos combustíveis em 2005? A resposta talvez seja que, desde que Alan Greenspan disse no FED que “a economia americana tem um conundrum†(que significa “mistérioâ€) toda Ata de banco central que se preze tem que conter algum conundrum...
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP - e-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br