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Marimbondos e outros bichos


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A semana foi movimentada lá em casa. Ioiô fugiu cansado de apanhar de Iaiá. Explico tratar-se de um casal de agapornes, periquitos africanos que a minha mulher comprou seduzida pelos delicados tons pastéis. Vizinhos solidários, o taxista do ponto em frente, o pessoal do posto de gasolina, todos corriam atrás de Ioiô com peneiras, redes e lençóis. Por tratar-se de uma ave exótica, nascida em cativeiro, provavelmente morreria de fome antes de acostumar-se à plena liberdade. Conseguiram recuperar Ioiô. De volta às grades, o fujão levou uma saraivada de bicadas da companheira. Resultado: não demorou um dia e o macho escapuliu novamente. Dois dias depois, Ioiô reaparece dentro da gaiola. Passou pelo mesmo vão do assoalho e se re-internou. Pior é a surra que a gente leva aqui fora com todos esses impostos, insegurança e desemprego. Mais surpreendente ainda foi a recepção diferente de Iaiá que tratou Ioiô de “meu benzinho”. Trocaram beijos de amor e o fugitivo até passou a compartilhar o ninho.

Outro problema surgiu com os marimbondos de fogo que fizeram morada na árvore em frente de casa. O garoto que vinha descendo a ladeira empurrando o carrinho com a irmãzinha-bebê chegou a ser atacado quando o caminhão-baú, rente à guia, roçou os galhos da árvore e alvoroçou a bicharada. A esquadrilha mergulhou no menino. Enquanto se defendia, o carrinho desceu sem condutor e invadiu a rua. Gritos, brecadas, buzinas. Quase uma tragédia... Telefonei para os bombeiros. “Não é aqui. Procure um apicultor”. Por que quem cuida de abelhas iria se interessar por marimbondos? “A árvore é sua. O senhor é responsável”. Senti-me ameaçado. "Mas a árvore está na rua, é pública", argumentei. “O senhor é que usufrui da sombra, então é com o senhor”. Contei o episódio da criança atacada. A ameaça que os marimbondos representam. Era preciso alguém capaz de nos livrar das doídas ferroadas. “Os bombeiros não matam. Só salvam. Somos a favor da vida...” Senti-me o pior dos homens. Como ir contra essa lógica cartesiana carregada de princípios éticos? Todos os animais são iguais. Nietzsche foi visto chorando, abraçado a um cavalo vítima de maus-tratos. O filósofo moral Jeremy Bentham assinalava a capacidade de sofrimento como sendo característica vital que confere a um ser o direito a igual consideração dada a um humano. Nada se resume à capacidade de raciocínio ou de falar. A questão é: “Eles são capazes de sofrer?” Se alguém, bicho-homem ou bicho-marimbondo, ameaça à nossa integridade física, temos o direito de nos defender. A ética da sacralidade da vida conflita com aqueles que preferem “deixar a natureza seguir seu curso”, ou deixar o paciente morrer, em vez de adiar a morte de quem já é incapaz de experimentar a prazer ou dor, como nos casos de morte cerebral, anencefalia, morte do córtex e o estado vegetativo persistente.

Os bombeiros apareceram à noite com uma viatura de luzes estroboscópicas, escadas de incêndio, pipas e mangueiras. Todas as luzes dos prédios vizinhos se acenderam. O espetáculo na sua rua vale mais que a novela na TV. Foi uma demonstração de eficiência. Deram cabo do inimigo em minutos e ainda lavaram a rua para sequer deixar resíduos. Pessoalmente discretos e educados. “Se aparecer mais algum bicho nocivo, é só chamar”. Fiquei com a sensação de ter feito a escolha correta ao pagar o carnê vermelho de contribuição aos bombeiros, mesmo com a querela jurídica levantada. Também sou a favor da vida.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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