Se o partido A casa com o partido B sob o teto da catedral de Brasília, terá de fazer o mesmo tipo de casamento nos Estados, sob os tetos das igrejas locais. Esse é o princípio da verticalização partidária, em torno da qual se voltarão as atenções nas próximas semanas. Como se sabe, até o momento, a regra continua valendo para as próximas eleições presidenciais. Isso quer dizer que qualquer partido que fizer coligação com o PT, no apoio ao projeto de reeleição de Lula, terá, necessariamente, de fazer o mesmo tipo de aliança nos 27 Estados da Federação. Regra exposta, emerge a questão: quem leva a melhor com a verticalização partidária?
Resposta: o PT. O Partido dos Trabalhadores só tem ganhos ao reunir em torno do presidente Lula o maior número de partidos, principalmente as grandes agremiações. Com a verticalização, o quadro político-eleitoral ficaria menos embaçado, propiciando leitura mais clara de estruturas governistas e oposicionistas. A partir deste entendimento, pode-se deduzir que aos dois grandes partidos de oposição - PFL e PSDB - pode interessar a verticalização partidária, principalmente quando se leva em conta uma polarização entre situação e oposição. Nesse cenário, o mapa exibiria dois candidatos, Lula, de um lado, e um oposicionista, saído da coligação de tucanos e pefelistas.
Mas o fiel da balança é o PMDB. Maior partido brasileiro, em função da capilaridade - maior número de prefeitos, vereadores e deputados estaduais - ao PMDB não interessa muito a verticalização. E a razão é plausível: o partido conta com candidatos bem viáveis em 17 Estados da Federação, a partir da reeleição de Germano Rigotto (RS), Luiz Henrique (SC) e Roberto Requião (PR). O melhor que poderia ocorrer ao PMDB, dentro da meta de eleger o maior número de governadores, deputados federais e estaduais, seria a alternativa de uma candidatura própria à presidência da República.
Coligado ao PT, por exemplo, o PMDB continuaria muito fracionado. Teria de ceder ao PT, em muitos Estados, o nome do candidato para encabeçar a chapa. Seria formado um nó difícil de ser desfeito. O PT apoiaria, por exemplo, Rigotto no Rio Grande do Sul? Pouco provável. Requião cederia a vaga a um candidato petista no Paraná? Inimaginável.
Se as pesquisas melhorarem muito, muito mesmo, a posição de Lula, no primeiro quadrimestre de 2005, seria possível que, por votação de 2/3, o PMDB decidisse apoiar, na Convenção de junho, a reeleição do atual presidente. Até lá, as bandas peemedebistas vão brincando de gangorra, subindo e descendo, na esteira de pesquisas em torno da imagem presidencial. Há, ainda, os chamados fatores endógenos, internos, que exibem a cota de prestígio de líderes nos diversos ciclos da conjuntura.
Não apenas o PMDB quer o fim da verticalização. Uma banda do PFL também a deseja, certamente ancorada na mesma impossibilidade de coligar com os tucanos na esfera dos Estados. A decisão pefelista dependerá do índice de intenção de voto que César Maia alcançar, na abertura do ano eleitoral. O tiroteio a que o prefeito do Rio de Janeiro está sendo submetido será um teste. Se for para a UTI - e que não estejam por lá os médicos comandados pelo ministro Humberto Costa - César Maia ficará com a candidatura comprometida. Os pefelistas correrão para os braços do PSDB. Ocorre que Geraldo Alckmin, o governador de São Paulo, também atravessa um inferno astral. Seu candidato foi fragorosamente derrotado na Assembléia Legislativa paulista, onde os deputados elegeram Rodrigo Garcia, do PFL, aliado de Alckmin (?), para comandar a Casa legislativa.
Quer dizer: o PFL, que apóia o PSDB, recebeu o apoio do rival PT para trair o aliado PSDB e eleger um dos seus. No meio da bagunça, como ficará, ao final, a questão da verticalização? Será um deus-nos-acuda. Resumo da ópera: sob qualquer fotografia - manutenção ou derrubada da coligação - o IT (Índice de Traição), nas eleições de 2006, alcançará os píncaros.
O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político