Os tantos representantes do mundo da cultura, da ciência, da política, dos meios de comunicação social: esses eu abraço com grata memória. Abraço esse que começou no dia 16 de outubro de 1978. O gesto de abraçar a humanidade, que até então era feito pelas colunatas planejadas por Bernini na Praça São Pedro, foi um gesto comunicativo forte de João Paulo II. Segundo o Dicionário Aurélio, a palavra abraçar significa tomar responsabilidade. Responsabilidade primordial com a paz.
É o homem que calça as sandálias do mensageiro, que deixa um patrimônio de humildade às pessoas. Que faz mostrar aos poderosos a conquista do coração da humanidade através de gestos simples. Abraçar e beijar o chão são sinais de comunicação. União e mensagem com significado de que o poderoso pode chegar até os mais simples pela via do amor. Hoje, o mundo se despede de Wojtyla, o polonês responsável pela democratização de seu país de origem, por fazer Fidel Castro entrar em uma igreja depois de 45 anos, de condenar frente a frente a guerra no Iraque, mas principalmente por aproximar as várias religiões e uni-las em um só coração. No milenar ritual do catolicismo vemos um papa tão próximo dos jovens, um grito que põe fim aos conflitos entre as gerações. Por que os jovens escutaram uma pessoa já alquebrada fisicamente pelo passar dos anos?
E o tempo foi modificado pelo Papa da Paz. “De modo particular, seja louvada a Divina Providência pelo momento que, no período da chamada “Guerra Fria” esta terminou sem qualquer violento conflito nuclear que pesava sobre o mundo no período precedente”, destaca o papa em seu testamento.
Mas se o fim da “Guerra Fria” não foi catastrófico, o motivo para isso foram suas mãos que abençoaram e lançaram desafios para que os homens se amassem mutuamente, ao invés de homens que não souberam bendizer, mas dizimar. Ao contrário, houve uma bomba nuclear disparada pelo papa. Só que do seu núcleo o que irradiou foi amor. Não pensem que foi a fragilidade que mais comoveu. Sem sombra de dúvidas foi o espírito de comunhão, de partilha que mantinham o coração do pontífice pulsando como os de uma criança.
Olhos que contemplaram os horrores do Nazismo e que se iluminaram ao ver a entrada do século 21. A esperança nunca morre e está sempre nos corações e nas boas atitudes, principalmente naquelas que promovem a paz. Os desafios da Igreja no conclave de 1978 era introduzir a Igreja no Terceiro Milênio. No caminho da santidade de João Paulo II, o desafio é manter a paz e o exemplo deixado pelo bom pastor na construção de uma verdadeira sociedade de justiça e fraternidade. Para isso vale utilizar as mesmas ferramentas do papa que fazem Roma nestes dias ficar em colapso: o diálogo, o respeito, o perdão e o amor.
O autor, Marcello Zanluchi, é jornalista