O andar da carruagem de nossas vidas exige complementos que, como temperos, melhoram o conteúdo principal, recuperando algum viço ou uma característica que só apareceriam se estivessem na justa presença destes catalisadores vitais.
Em vários momentos, tentáculos de uma atividade ou de pensamentos díspares se misturam de maneira a turvar positiva ou negativamente uma água, que tenderia a ser hermética se tal injunção não acontecesse.
Professores são especialistas e quase que obrigados a ingerir na educação de filhos que não são seus. Ganham para isso e por isso mesmo certos pais acabam por deixar esta responsabilidade quase que integralmente nas mãos de mestres que não dormem com estas crianças e que muito menos conseguem passar daquilo que lhes é devido fazer. Exigir mais do que isso é escamotear incompetência, derrubando sob as costas largas dos professores a gritante falta de carinho exibida por pais àqueles que são colocados no mundo sem as próprias anuências prévias. O resultado está à mostra nos outdoors da violência, nos escabrosos casos de delinqüência juvenil que a publicidade real nos escancara. Neste caso, a ingerência se torna dúbia: se demais, errada; se de menos, talvez também errada. Cabe à escola, junto dos pais, erradicar esta dubiedade que torna tais instituições incompetentes.
Na política, o que mais existe são ingerências, quase sempre incompatíveis com as reais metas de uma ação política, que gira em torno da máxima “o bem comum”. O bem comum implica perdas para os mais favorecidos, e é aí que tudo se complica, porque tal ingerência social bate de frente primeiro com a aristocracia dominante e segundo com a economia de mercado - liberal por excelência - que venceu a disputa ideológica no fim do século passado, com a queda do muro de Berlim associada à dissolução da União Soviética. Consumo, portanto existo é o ditado neoliberal que prevalece sobre a possibilidade de se resgatar a dívida histórica que os poderosos arcam, a qual resultaria na melhora na distribuição de renda, possibilitando aos brasileiros comer, trabalhar e estudar com um mínimo de dignidade.
Tal ingerência econômica e sua resultante fria, que privilegia a obtenção de elevados “superávits primários” em detrimento à melhora dos índices sociais, não deve ser creditada à política do PT, muito menos de FHC. A criação dos Fundos Monetários Internacionais e sua canonização fizeram dos países exatos cartórios alhures e algures, sem língua nem pátria a fazer parte do intrincado jogo globalizado da economia sem fronteira, cujo padrasto se chama Estados Unidos. Tal ingerência, representada pelo volátil dólar estrangeiro, interessado nos juros que servem para combater a inflação e financiar a dívida do Estado é malévola e perversa, diminuindo nossa capacidade de reação, fazendo-nos vítimas indefesas de um modelo suicida.
Talvez a maior e melhor ingerência deva acontecer no interior da mente de quem a tem. A consciência de poder deitar num travesseiro com tranqüilidade deveria ser a meta de quem tem a proposta de se doar por uma vida melhor. Somos políticos em cada sapato que engraxamos, em cada geladeira que compramos, em cada cheque que assinamos, em cada produto que fabricamos. Por isso, não é preciso um mandato eleitoral para que a educação de um povo venha à tona e exija com ira a melhora de um país cansado de erros grosseiros. É preciso vontade política de uma sociedade organizada e sabedora de suas obrigações, porém orientada para fazer valer sua força, a imensa força que é gerada no motor das injustiças, da máquina incansável que faz girar a roda da mudança.
O autor, Marcondes Serotini Filho, é cronista e articulista