Tribuna do Leitor

João Paulo II


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Embora não seja católico, tenho muita admiração pelo papa recém-falecido. Sua participação no século 20 e início do 21 não pode ser negada, como a de um homem de atitudes conscientes e que buscou através de sua presença nos cinco continentes levar uma mensagem de paz e de entendimento entre os povos.

Todos sabem, porém (não tanto quanto o cardeal do Rio de Janeiro, claro), que a Igreja Católica nunca deu saltos em sua trajetória e conserva princípios e dogmas que informam sua própria existência e, como tal, não são negados ou alterados sob risco de provocar a finitude na própria religião.

O papa João Paulo II cumpriu fielmente e defendeu bravamente estes princípios e dogmas. No meu modesto, porém cristão, entender, falhou em não permitir a expansão da fé católica em favor do desenvolvimento da ciência e de uma nova forma de viver socialmente segura e não menos cristã. Apegou-se aos dogmas foi fiel, foi defensor. Mas deixou em seu apostolado de permitir à Igreja Católica aderir ao avanço dos estudos sobre as células-tronco, deixou de considerar a interrupção da gravidez em situações de risco iminente e comprovado da mãe, ou em situações de violência carnal inaudita e não permitida.

Deixou de considerar o homossexualismo como uma realidade a que não basta criticar e deblaterar, mas sim entender suas razões, origens e destinos. Em outras palavras, com perdão do termo (mas é o melhor que define a posição eclesial), deixou de considerar o homossexualismo senão como autêntica “sacanagem”.

À sua morte, a comoção mundial foi praticamente total (inclusive a minha). Quem não esteve às portas do Vaticano gostaria de ter estado. Mas, tirante a emoção sincera dos fiéis, que se respeita e se entende, a morte do papa tornou-se um evento midiático.

Às televisões de todo o mundo só faltou transmitir os estertores de Sua Santidade em seu leito de morte. E, num clamor motivado mais pela emoção que pela razão, o povo que se comprimia perante a Basílica de São Pedro, bradava “Santo, santo, santo”.

Agora, os jornais informam que os cardeais assinaram um documento que propõe a canonização de Karol Woytila. De forma rápida, sem passar pelo severo crivo que outros candidatos a santo têm passado. Diga-se a propósito que o papa João XXIII, falecido em 1978, ainda é apenas um beato. Seguindo o “codex” da Igreja Católica, não seria preciso primeiro apurar os ditos milagres realizados pelo papa João Paulo II? Quais, onde e quando foram?

A Igreja Católica corre o risco, empurrada por uma manifestação popular (quem já leu algo a respeito da sociologia das massas, entenderá perfeitamente), de queimar etapas em questão secularmente defendida. Acorrem-me, então, as personalidades de irmã Dulce, padre Cícero e irmã Dulce (para ficar apenas no território brasileiro). Seriam estes menos santos que o ex-Santo Padre?

Assim é a Igreja Católica a que não pertenço, mas respeito sempre. Ousa ser vanguardista, ultrapassando barreiras (talvez muitos as julguem apenas burocráticas) e mantém um rançoso conservadorismo de costas para a ciência e para a salvação de muitos humanos condenados ao definhamento e à morte, por falta deste impulso que a Igreja poderia dar em favor das experiências científicas, únicas possíveis de levar à cura.

Afinal, o Deus que a Igreja Católica (e penso que as outras) segue, não é aquele mesmo que veio a nós “para que todos tenham vida e para que sejamos fartos”? A saúde não é a maior fartura na vida?

Marco Antônio de Souza - OAB/SP 55.799

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