Cultura

Sobre mundos: A cada momento

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

"Pai!”, disse a criança. “O que é, meu filho?”, resmungou o pai enquanto lia o seu jornal de domingo. “Eu vou ter de ler jornal quando eu crescer?” “Mas é claro que sim!”, respondeu o pai sem dar muita atenção ao garoto. “E por que, pai?” O pai continuou a ler o jornal sem ter ouvido a pergunta, pois estava justamente conferindo os resultados do campeonato na parte de esportes.

“Por que, pai? Eu quero saber!”, insistiu o garoto. “Hum? Por que o quê?” “Por que eu vou ter de ler jornal quando crescer?”, falou mais alto o filho. “Meu Deus, como adulto você tem que ler jornal. A gente precisa se manter atualizado!” “O que é manter-se atualizado, pai?” “Meu Deus do céu, menino, isso quer dizer... saber o que está acontecendo, entendeu?”, respondeu o pai já com certa irritação. “Não!”, afirmou o garoto. “Então eu te explico outra hora. Agora eu estou lendo o jornal!”

“Por que você não consegue ler quando está conversando comigo?”, perguntou o menino. “Porque você me atrapalha, menino! Falar atrapalha sempre. A gente deve falar o menos possível, vê se aprende isso!”, disse o pai não tirando os olhos do jornal. “O nosso professor na escola fala bastante, pai!”. “Bom, agora chega garoto! Ele fala porque é professor. Professores podem falar. Mas as crianças devem manter silêncio, entendeu!?”. O garoto olhou o pai com surpresa e disse: “Mas... mas, se eu ficar em silêncio o tempo todo na escola, o professor me dá a maior bronca!”. Perdendo de vez a paciência, o pai dobrou o jornal e quase gritou com o menino: “Não é possível, Jesus, Maria e José, agora para mim é demais! Eu quero, de uma vez por todas, ter sossego para ler o meu jornal! Se você continuar a fazer perguntas eu vou acabar em um hospício!”. “Em um hospício você precisa ler o jornal, pai?”, perguntou o garoto com voz calma. “Não, não, não, meu Deus! Não, em um hospício não existem jornais!”. “Uauuu..., pai”, disse o garoto com um sorriso no rosto, “nesse lugar eu vou várias vezes visitar você, e a gente vai poder conversar, sem que eu te atrapalhe!”

Não raramente possuímos a tendência de viver antecipadamente o nosso futuro. Nos angustiamos muitas vezes com as preocupações do que pode vir a acontecer ou então nos sentimos contagiados pela alegria da possível realização de nossos sonhos e planos. Outras vezes, gostamos de viver das lembranças de nosso passado. Assim, nos atormentamos com as más experiências que tivemos ou sentimos o prazer de recordar com grande nostalgia os tempos nos quais fomos muito felizes. Se não estamos, de certa forma, no passado ou no futuro, somos levados pelo ritmo frenético do cotidiano a viver o tempo presente de uma forma extremamente superficial. Com o acúmulo de atividades e afazeres, sentimos o tempo voar, os dias e semanas fluírem sem que tenhamos tempo de vivê-los realmente. Antecipando um futuro que talvez nunca existirá, recordando de um passado que, com certeza, não mais viveremos ou experimentando o dia-a-dia em sua superficialidade, nós perdemos a chance de viver o verdadeiro conteúdo do momento presente. Nos três modos de experimentar a vida, corremos o risco de perder o convite, a invocação, aquilo que cada momento tem para nos oferecer.

Os antigos gregos davam ao apelo de cada tempo o nome de “kairós”. Cada momento que experimentamos possui uma exigência, seu kairós, ou seja, aquilo que ele nos dispõe, seu conteúdo mais profundo: a convivência com aqueles que amamos, a conversa que podemos ter com alguém, aquela decisão que podemos tomar neste exato momento, um encontro inesperado.

Se o tempo é generoso, nos oferecendo oportunidades a cada instante, ele é ao mesmo tempo cruel. Pois, como dizia Heráclito, o universo encontra-se em constante transformação e transitoriedade. Na vida, tudo é passageiro. Tudo flui, nada fica, por isso nunca podemos mergulhar duas vezes em um mesmo rio. Cada momento, cada tempo possui seu kairós, seu chamado a uma decisão que direciona o nosso destino. Este conteúdo do tempo é sempre único; uma vez oferecido, nunca mais o teremos novamente.

Dependendo da forma como vivemos esta oferta do momento, marcamos tanto nosso passado como também nosso futuro. O desafio do viver no tempo é estar atento ao conteúdo do presente e interagir com ele. “Mantenha o infinito em suas mãos e a eternidade em um momento” (William Blake). Muitas vezes, desperdiçamos o prazer - ou até mesmo o desprazer - de viver o momento presente e nos esquecemos que é preferível arrepender-se do que fazemos, do que amargurar-se com o que poderíamos ter feito e não fizemos. Quem já assistiu o ótimo filme “Feitiço do Tempo”, com Bill Murray, pode compreender com mais facilidade o que, certa vez, escreveu o sábio monge Dalai Lama: “Só há dois dias no ano em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro amanhã; portanto, hoje é o dia certo para amar, acreditar e principalmente viver.”

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