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Família resiste à quebra de valores

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

Você já reuniu sua família hoje para um bate-papo descontraído e gostoso durante o almoço, no jantar ou mesmo à noite, pouco antes de dormir? Se a resposta é sim, você faz parte de uma parcela privilegiada da população que ainda procura manter vivas as relações familiares diante de um mundo cada vez mais veloz e emocionalmente frio.

Distante do cenário interativo em que viveram nossos bisavós e avós com seus filhos, a sociedade contemporânea despreza a vida familiar por uma série de fatores. Mas, ainda bem, há exceções.

Num passado não muito longe, era comum a família se reunir diariamente nas refeições. Configurava-se o momento íntimo da casa, no qual se discorria sobre assuntos corriqueiros da vida familiar, do bairro, da escola, do serviço dos pais e até mesmo dos vizinhos.

À noite, após o jantar, a TV de hoje com novelas e programas fúteis, a Internet e os jogos de videogames eram espaços ocupados por um bom bate-papo, regados a histórias curiosas que davam asas à imaginação de quem estivesse na sala. Um verdadeiro sarau familiar que a cada dia que passa se torna raridade.

A família Kobayashi faz parte dessa seleta parcela da sociedade que alimenta diariamente as relações familiares. E alimenta no sentido literal da palavra. O primeiro contato mais longo da professora Maria do Carmo e de seu marido, Mário, com os filhos Fernando, 21 anos, e Felipe, 16 anos, ocorre justamente na hora do café, logo pela manhã.

A interação familiar ganha reforço no almoço, horário em que todos se reúnem novamente. “O almoço é sagrado para nós. Na semana passada, fui banca na Unesp. Liguei para o meu marido e disse que não daria tempo para almoçar com eles. Ele me disse brincando: ‘Está multada’. Temos esse acordo de almoçar todo mundo junto. Se não é possível, é obrigação avisar”, diz.

O depoimento de Maria do Carmo é reforçado pelo marido. “É um privilégio reunir a família nesse mundo acelerado”, comenta. Seus filhos já estão tão acostumados com a rotina que, quando surge um imprevisto com algum membro da família, a ausência é muito sentida.

“É muito legal essa nossa convivência. E posso dizer que não sei como seria diferente. Se tiver que almoçar sem eles, com certeza vou sentir falta”, diz Felipe. “Vou fazer de tudo para que esse exemplo seja seguido quando eu constituir família”, vislumbra Fernando, o irmão mais velho.

A velocidade estonteante que gira o mundo externo é barrada na porta de entrada da casa de Maria Odila Soares da Silva. A família também criou o costume de se reunir na hora do almoço para colocar a conversa em dia. “É necessário que em algum momento do dia a família se reúna. O mundo lá fora já é meio difícil. Pelo menos aqui dentro nos entendemos”, conta Maria Odila, mãe de dois filhos.

Ela revela que o ritual do encontro é mantido de segunda a sábado. “O único dia da semana que o horário do almoço é liberado é o domingo. O pessoal sai para a balada na noite de sábado e retorna um pouco tarde. Eles pedem para dormir até um pouco mais tarde no domingo”, comenta. Seu filho, o advogado André Renato Soares da Silva, 23 anos, observa que o encontro da família na hora do almoço não é muito prolongado. “Mas é bom porque todo mundo se vê e conversa”, diz.

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