Tribuna do Leitor

Saudades da pipoca baiana


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Sinto-me como aquele milho de pipoca frustrado no fundo da panela repleta de sal. Conheço todos os mecanismos sectários dos carnavais da minha terra: seleção de foliões por fotos três-por-quatro para que os negros não circulem pelas alas da sociedade abonada (branca em sua maioria) e continuem o seu trabalho - proteger os “alvos e esbranquiçados” que pagaram o suficiente para não “se misturarem”; movimentar o mundo dos catadores de lata que, por falta de dinheiro, aproveitam a folia dos bebericos alheios para arranjar uns trocados ao findar a festa; dentre outros tentáculos da injustiça, que poderiam fazer parte de estudo acadêmico - agora não é a vez de comentá-los. Quero pilheriar, como bem tem me ensinado um amigo meu, o que chamo de “micoreta” Bauru Folia.

Uma festa fechada em pleno espaço público. Um carrossel irritante de no máximo um quilômetro de extensão, protegido por uma muralha férrea e algumas lancetas. Parcas pessoas achando divertir-se dentro de um cercado que sequer era de arame, por isso não permitia que aqueles de fora vissem os de dentro, nem os de dentro viriam o sorriso e o olhar de inveja (ou desdém) dos que não tinham cem, trinta ou dez reais para comprar a alegria. Fui ansioso ao encontro de uma folia de história conturbada, quase cancelada, com o brilho baiano nos olhos e o gosto da guitarra e do timbal na boca.

Quando me vi privado dos sentimentos nostálgicos do Carnaval-música-diversão da Terrinha (ainda que excludente), cuspi ao chão e me perguntei: Onde estou? Achei que molharia parte do canteiro destruído da avenida Nações Unidas e de lá brotaria uma árvore sábia, dando-me resposta breve. Lembrei que nestas terras tudo que se planta dá. E um vegetal me enrolou os pés, puxando-me ao chão. Sussurrou em meu ouvido “acorda”.

Caí em mim. Em terra de cegos, quem tem um olho já vai perdê-lo. Quando alguém visa o próprio umbigo em detrimento de outros laços sociais é que eu ratifico um provérbio de lá das quebradas de Itapoã, da Ribeira, Cidade Baixa... “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Daqui a certo tempo, brincaremos o carnaval, ou micaretas, dentro de redomas nas quais o confete, a serpentina e o lança perfume serão confundidos com o colorido-negro das notas do dinheiro. Ah! Que saudade das cordas de nylon. Porque aqui em Bauru nem pude ser pipoca.

Romulo S. Osthues - RG 0832937797

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