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O papa equivocado


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O conclave que se seguiu à morte do papa Nicolau IV (1288-92) cometeu um erro terrível - conta o historiador inglês Nigel Cawthorne. Passados quase dois anos de impasse, os cardeais não chegavam a uma conclusão. São Boaventura havia comparado Roma “à meretriz do Apocalipse, embriagada no vinho da própria devassidão”. Em Roma, dizia Boaventura, nada havia além da luxúria e simonia (venda de cargos eclesiásticos), mesmo nos altos escalões da Igreja. Os prelados não encontravam entre eles alguém capaz de, uma vez investido do mais alto poder, reinstalar a ordem e a moral. Alguém se lembrou de eleger um “santo em vida”, o eremita conhecido como Pedro de Morrone, que vivia numa caverna, a 350 metros de altura, nos Apeninos, perto dos Abruzzi da Itália atual. Sequer estava no conclave. Foram buscá-lo para coroá-lo como Celestino V (1294). Aí começaram os problemas. Como não suportasse viver no ambiente de licenciosidade de Roma, transferiu-se para Nápoles.

Os cardeais logo perceberam o erro quando Celestino começou a doar os bens da Igreja - para os pobres. Ele não tinha a menor tolerância para com a corrupção ou a simonia. E os príncipes da Igreja se preocuparam porque rapidamente estariam falidos. O notário papal, cardeal Benedito (ou Bento) Gaetani, aproveitou sua chance. Para ganhar a confiança de Celestino, fez construir para o velho eremita, nos imensos salões de Castelo Novo, o palácio de cinco torres de onde se descortina toda a baía de Nápoles, uma humilde choupana de madeira. Ali, Gaetani foi convencendo Celestino a abdicar.

Passadas 15 semanas de sua consagração, Celestino reuniu os cardeais e lhes rogou que passassem a viver na pobreza, como Jesus. Então, como exemplo para todos, Celestino tirou seus paramentos, vestiu seus rudes andrajos de eremita, renunciou e foi embora, com Jesus, em um jumento.

Por ter executado esse golpe, Gaetani foi eleito, ele próprio, papa, pelos agradecidos cardeais e foi coroado Bonifácio VIII. Para sentir-se seguro, seu primeiro ato como papa foi trancafiar Celestino no castelo de Fumone, onde ele morreu desnutrido e abandonado, alguns meses depois.

Nada tem a ver a Igreja de 700 anos atrás com a da Era Moderna, graças a Deus. Talvez nem seja lícito recuperar histórias de um tempo de heresias e luxúria no momento em que o mundo católico está em festas pela eleição do novo pontífice. Mas ainda há, neste novíssimo século XXI, aqueles que ainda sustentam que o papa deveria se utilizar de uma simples capela. Um deles é dom Pedro Casaldáliga, bispo da prelazia de São Felix do Araguaia (MT), catalão teimoso que decidiu dedicar sua vida aos pobres, negros e índios nas selvas do Brasil. Adepto da Teologia da Libertação, assim como o franciscano Leonardo Boff, teve que prestar contas ao cardeal Ratzinger, então prefeito da Congregação para Doutrina da Fé. “Que história é essa de Missa dos Quilombos?” Dom Pedro Casaldáliga foi instado a abandonar sua prelazia depois de aposentado para não constranger seu sucessor. Boff deixou o hábito depois de condenado ao “silêncio obsequioso”. Ratzinger, agora Bento XVI, já era conhecido pelos apelidos curiosos de “cardeal de ferro” e “rottweiler de Deus”, defensor intransigente da ortodoxia católica.

Em 1976, era eu um jovem repórter destacado para cobrir a reunião dos bispos latino-americanos em Medellín, na Colômbia. As decisões do Conselho Episcopal foram de uma grande ousadia e espírito de justiça contra o estado de pobreza em que estava mergulhada a América Latina com seus governos ditatoriais. Anos depois, em Puebla, México, a mesma opção da Igreja pelos pobres. Dava gosto ouvir dom Pedro Casaldáliga e dom Padin (viria a ser bispo de Bauru) em suas colocações em favor da mais justa distribuição de renda e da inclusão social. Eram vozes em favor da libertação de um povo massacrado pelo sofrimento, a humilhação e a fome. Pela primeira vez um papa - Paulo VI - visitou naquele ano um país latino-americano. Testemunhei em Bogotá a multidão de esperançados gritando o seu nome. Sua presença foi recebida como um aval à posição corajosa dos bispos.

Li o excelente artigo do escritor bauruense Henrique Perazzi de Aquino em “A tribuna do leitor” de quinta-feira, sobre Casaldáliga. Inspirou-me nestas lucubrações próprias de um observador frustrado. Hoje somam 140 os teólogos punidos - a inteligência renovadora da Igreja - por defenderem os princípios de Medellín e Puebla. Os pobres ficaram mais pobres. Perderam a fé ou conquistaram outra. Milhões deixaram o catolicismo.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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