Com o crescente esgotamento e a conseqüente supervalorização dos espaços disponíveis para comércio e prestação de serviço na região da zona sul e Centro de Bauru, começaram a surgir nos últimos anos novos pólos de concentração para estas atividades. Exemplos de “minicidades” aparecem nos quatro cantos da cidade, com proliferação de atividades tão intensa e variada que os moradores da região podem até se furtar de deslocamentos maiores para realizar obrigações corriqueiras do dia-a-dia. Um exemplo clássico deste tipo de situação acontece no núcleo habitacional Mary Dota, considerado o maior da América Latina, com 3.639 unidades e uma população residente estimada em cerca de 15 mil pessoas. Duplicada e com pistas largas, a principal via do bairro - a avenida Marcos de Paula Raphael - logo começou a ser palco de uma fervilhante atividade comercial.
Hoje, é difícil percorrê-la e não encontrar pelo menos um ponto onde não possa se satisfazer as necessidades básicas da vida cotidiana. O comércio variado oferece postos de gasolina, lojas de confecções (adulto e infantil), calçados, materiais de construção, eletrônicos, estofados, fraldas, casas de rações, lotérica, drogarias, papelarias, óticas...
O setor de serviços não fica atrás, com lotérica, despachante, oficinas de carros e bicicletas, entre outros, o mesmo acontecendo com atividades relativas a entretenimento, com bares, lanchonetes, sorveterias, pizzarias.
O comerciante Claudemir Gimenez, 44 anos, chegou ao Mary Dota logo na sua inauguração na condição de um prestador de serviços na área da construção civil. “Percebi que havia campo para abertura de um comércio na minha área, principalmente com o surgimento de novos conjuntos habitacionais próximos (Bauru 1, Bauru 2000, Chapadão) e a natural necessidade ampliação das casas”, explica o proprietário de um loja de materiais hidráulicos e elétricos.
Gimenez, que considera o Mary Dota um “bairro excelente para se viver”, diz que dois aspectos atormentam os especialmente os comerciantes da região: a inexistência de agências bancárias e a interrupção do tráfego na ponte Ayrton Senna, que liga o Mary Dota à região do Distrito Industrial - a importante passagem está interrompida desde janeiro de 2003 devido a problemas em sua estrutura.
Mas todo este processo de ocupação aconteceu mais um função da presença de uma grande aglomeração populacional moradora num local distante da região central do que fruto de um planejamento. “Houve condições melhores para isso (atividade comercial e de prestação de serviços), mas aquele corredor já está inadequado”, avalia o arquiteto e professor José Xaides de Sampaio Alves, referindo-se, por exemplo, à inadequada largura das calçadas e da inexistência de praças. “Até há áreas verdes, mas estas acabaram abandonadas por falta de articulação viária”, constata.
Centros problemáticos
Outros exemplos - todos negativos - de concentração comercial mal resolvidos por falta de planejamento não faltam. Xaides cita o caso do Núcleo Habitacional Presidente Geisel, cujo projeto não se preocupou com a construção de vias destinadas a este tipo de atividade.
“O bairro não possui uma via que articule as avenidas Nações Unidas e Rodrigues Alves, obrigando os usuários que precisam da ligação a fazerem um zigue-zague por ruas estreitas”, comenta. “Com isso, a ‘rua do ônibus’ acabou virando um centro comercial, mas sem qualidade. Faltou antecipar o futuro”, completa.
O mesmo acontece na região Oeste da cidade, onde uma intensa atividade se desenvolve no entorno da avenida Castelo Branco, uma via estreita que, além de dar acesso a diversos e populosos bairros (Vila Independência, Popular Ipiranga, Jardim Ferraz e Ouro Verde, entre outros), ainda é saída importante para a vizinha cidade de Piratininga.
O caso desta via acabou até mesmo virando tema de polêmica na cidade. Em 1993, a Câmara Municipal aprovou a Lei de Zoneamento, que determinava, entre outros itens, o recuo mínimo de cinco metros para os prédios construídos ao longo da via. A medida tinha como objetivo possibilitar, no futuro, o alargamento da avenida.
No ano passado, depois de meses de discussões acaloradas, a Câmara modificou o recuo para três metros, o que, na prática, inviabilizou o alargamento. O principal argumento para aprovação do projeto foi o de que o novo Plano Diretor do município, que está sendo elaborado, prevê a construção da avenida Água do Sobrado, cujo traçado será paralelo ao da Castelo Branco. O principal problema é que, apesar de estabelecer diretrizes, o Plano Diretor não determina prazos para as obras previstas. Resultado: os transtornos viários naquela região estão mantidos...