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Compreensão das cores facilita vida

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 8 min

Vermelho ou azul? Gosto não se discute, mas neste caso específico é preciso dizer que o vermelho é uma cor muito mais penetrante e que faz bem aos olhos de quem a vê ou até mesmo de quem a veste. A garantia é do designer Nelson Bavaresco, que há mais de 40 anos estuda a influência das cores no cotidiano das pessoas.

Na última quinta-feira, ele foi um dos convidados para falar sobre o assunto na 1ª Semana do Design “Diverso Design”, evento promovido pelo Instituto de Ensino Superior de Bauru (Iesb/Preve).

Autodidata, Bavaresco criou um clima de tanta intimidade com as cores que chegou a fazer experiências dentro da própria casa para provar sua influência no metabolismo humano. E conseguiu.

Na condição de primeira cobaia, rosqueou uma lâmpada de cor azul na sua geladeira. Fez a mesma troca nas toalhas de sua sala de jantar e do lavabo. “Perdi o apetite logo após a mudança”, garante. O estômago de Bavaresco só reclamava quando o designer ganhava as ruas de São Paulo. “Passei a comer em restaurantes durante um bom tempo”, diz. Leia os principais trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - O que é a cor?

Nelson Bavaresco - A cor é uma sensação. Ela não existe concretamente. Usamos como sinônimo de cor a tinta, que é material. Nós percebemos que a cor é uma sensação transmitida pela energia da luz, que é uma forma de energia eletromagnética, como é o microondas, o raio X, as ondas de TV e de rádio. O sol, por exemplo, ilumina, a cada 12 horas, uma faixa da Terra. É óbvio que energia eletromagnética exerce algum tipo de influência em todos os seres vivos. É por isso que existe casos em que a cor é usada para certos tipos de tratamento médico.

JC - Quando e como nasceu a cromoterapia?

Bavaresco - A cromoterapia é um assunto antigo. No início do século 20 foram registrados muitos estudos sobre ela. A 1ª Guerra Mundial, que começou em 1914, gerou uma série de necessidades ligadas à saúde, como o tratamento e a cura de ferimentos. Havia uma pressa muito grande na forma de respostas. E como a cromoterapia não se preza a isso, ela foi deixada de lado. Havia muitos hospitais europeus, antes da guerra, que faziam tratamento com a cromoterapia. Mas a guerra gerou outro enfoque na medicina. Desenvolveu-se a penicilina, a radiografia. O foco da medicina se voltou para as coisas que tinham resultados mais imediatos.

JC - Existem cores que influenciam negativamente e outras de maneira positiva?

Bavaresco - A energia eletromagnética tem faixas básicas de ondas. São as chamadas ondas longas, médias e curtas. E é isso o que provoca diferenças no organismo. As ondas curtas, que são as faixas dos azuis, são mais penetrantes porque seu comprimento de onda é menor. As ondas longas, que são as faixas do vermelho, do laranja, são menos penetrantes, mas são mais estimulantes. As cores azuis trabalham mais o interior do corpo. É como se elas fossem cores do eu interior. Por isso o azul é associado com melancolia, com tristeza e até mesmo relacionado ao espiritual. Enquanto o vermelho, que é uma cor com menos penetração no corpo, é mais estimulante, mais superficial. O vermelho é a cor do eu exterior, é o que acontece na pele. É uma cor de estímulos até mesmo para a atividade sexual.

JC - Alguns estudiosos também afirmam que o laranja espanta tristeza e pensamentos negativos.

Bavaresco - Sim. O laranja é a cor da alegria, da família, do lar, da casa, do aconchego, da irmandade, da fraternidade. Ela estimula isso e também estimula o apetite. O azul desestimula. Fiz uma experiência interessante. Troquei a lâmpada da minha geladeira por uma lâmpada azul. Também coloquei uma lâmpada da cor azul na copa, onde fica a geladeira. Usei toalhas azuis. A apetência caiu barbaramente. É até uma forma de se comer menos. Depois que ficou tudo azul, fui comer num restaurante. Uma coisa é a energia eletromagnética. Outra são as associações culturais, históricas, de que a cor se reveste. O vermelho tem essa conotação com a guerra, com a ira, com a raiva. Mas, ao mesmo tempo, é um estímulo à luta. Segue-se mais uma bandeira vermelha do que uma da cor azul.

JC - Quando o homem descobriu que o mundo poderia ser mais colorido?

Bavaresco - O século 20 foi o grande século. A indústria química começou a descobrir a síntese as formas de produzir mais cor a um preço mais barato. Na antigüidade, o vermelho, o púrpuro, era a chamada cor dos reis. Isso porque a produção dessas tonalidades avermelhadas era muito cara. Hoje não. Qualquer pessoa pode comprar um tecido de qualquer cor. Estive em Florianópolis recentemente e notei que os moradores de lá usam e abusam das cores em móveis e imóveis. Não estou dizendo que isso me agrada. Em Ribeirão Preto, isso também ocorre. O século 21 será o século da cor. No século 19, a química teve um grande avanço. A convenção da cor foi surgindo aos poucos. Havia erros, no passado, na forma como se apresentava a cor - o que era primário, secundário. E isso ocorre até hoje. Temos um problema cultural. Não há um ensino correto da cor. Isso tinha que começar na escola primária. A minha vinda a Bauru faz parte de um programa que está em desenvolvimento que chama-se Difusão da Cultura da Cor. O objetivo é passar essas questões para quem está estudando design, arquitetura, moda e decoração.

JC - O que o senhor prevê de avanço na discussão do tema cor para este século?

Bavaresco - A aplicação da cor no sentido decorativo e no nosso dia-a-dia, em tudo que nos rodeia, nos objetos que são fabricados, tanto os de longa duração quanto os de consumo, tem duas vertentes. Uma é no sentido artístico, do discurso estético. E a outra envolve a questão da moda, que se manifesta no vestuário feminino. A indústria e os interesses econômicos são os que fazem a moda. As indústrias envolvidas acabam definindo uma determinada cartela para cada nova estação. E isso, necessariamente, não é problema de estética. É problema de interesses comerciais. Claro que isso também tem muito de cultural, de época. Às vezes tem a ver com guerra, com o seu término. São coisas marcantes na vida da humanidade que determinam essa questão das cores. Nos períodos que antecederam a 1.ª e a 2.ª Guerras Mundiais, sempre houve muito uso da cor cáqui. Nas passagens dos séculos há uma tendência para as cores escuras, neutras. As pessoas têm um pouco de medo do fim do mundo. Elas ficam mais recatadas e evitam o uso de cores fortes. Mas sempre após uma guerra há uma tendência para cores mais alegres.

JC - A África mostra ao mundo cores alegres e vivas no seu dia-a-dia.

Bavaresco - Sim. A raça negra tem a vantagem de aparecer mais. Os negros são muito mais bonitos, tanto homens quanto mulheres, com roupas coloridas. Percebe-se que eles usam cores vivas e se integram muito mais porque o negro é neutro. Eu, por exemplo, sou de descendência européia. A maioria dos europeus é de um tipo de construção física que vai bem com cores frias. Porém, as cores frias não são tão alegres como as cores quentes, muito ao gosto dos africanos, do povo do Caribe.

JC - E como o senhor avalia o Brasil no que diz respeito a aplicação das cores?

Bavaresco - Eu acho que o brasileiro usa cores em certas circunstâncias. No geral, nós não usamos. Somos pobres em cores. A juventude só usa jeans, camiseta preta ou branca. Em Florianópolis, as pessoas são mais coloridas. No geral, a grande massa não é.

JC - Por quê o brasileiro não é colorido?

Bavaresco - É a cultura do jeans. Isso não tem nada a ver com a gente. Vivemos num país tropical. É claro que existem ambientes onde se usa muita coisa colorida. É o caso do ambiente esportivo. Mas no geral, no dia-a-dia, os brasileiros não usam colorido. Acho que isso é um pouco mundial. A exceção fica para a África e para a Austrália, que é um país de dominação inglesa, mas que recebe gente de todo o mundo.

JC - O senhor lançou, no ano passado, o disco “Fazendo harmonias e mistura de cores”. Qual é o objetivo desse trabalho?

Bavaresco - Esse é um trabalho no qual me concentrei muito porque envolve o estudo da harmonia das cores. E a harmonia das cor e muito semelhante a harmonia musical. É possível falar de harmonia sem especificar se estamos falando de cor ou de música. Ao falar de música, usamos muitos termos das cores. Tem a questão dos acordes que têm nomes semelhantes. Há toda uma linguagem cromática para falar da música. Há inúmeras opções de combinações de cores. Não existe uma harmonia ideal, melhor do que outras. Você tem harmonias adequadas para determinadas finalidades. Com relação à cor, ela tem os mesmos tipos das harmonias musicais. Você tem a harmonia consonante e dissonante. E o que é melhor? Não existe. O Tom Jobim, por exemplo, usava harmonias dissonantes. E a dissonância parece, às vezes, negativa em relação à consonante. Mas não é. Na verdade não é bem isso. Dissonante é uma harmonia de contraste e a consonante é de semelhança.

JC - Qual é ou quais são suas cores preferidas?

Bavaresco - Laranja e azul. São cores complementares. É um par muito legal. Entre todos os pares de cores complementares, o mais positivo é o laranja e azul.

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