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Trabalho obriga jovem a estudar menos

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Trabalhar e estudar é um esforço que nem sempre resulta pontos positivos para os jovens. A necessidade de arrumar emprego para ajudar a custear as despesas da família e a sua própria impõe ao jovem um tempo de dedicação cada vez menor aos estudos, prejudicando seu aprendizado. Com isso, parte da categoria chega ao mercado de trabalho sem preparo.

E mais: o trabalho também provoca defasagem escolar. Na média de idade de 15 anos, um jovem deveria estar iniciando o ensino médio, mas no Brasil apenas na idade de 18 anos o jovem consegue concluir o ensino fundamental (1ª a 8ª série), sendo que deveria estar começando o primeiro ano do ensino superior.

É o que aponta estudo desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Gelre, empresa especializada em relações humanas do trabalho, intitulado “Os jovens e o mercado de trabalho no Brasil”.

Segundo o professor João Sabóia, pesquisador e diretor do Instituto de Economia da UFRJ, milhões de jovens brasileiros dividem seu tempo entre a escola e o trabalho, o que dificulta uma maior dedicação aos estudos, favorecendo o atraso escolar.

“A tendência é de redução do número de jovens que se dedicam aos estudos na medida em que se avançam as idades”, explica Sabóia. Segundo a assessoria de imprensa da Gelre, a taxa de desemprego dos jovens entre 18 e 24 anos em 2003 foi de 18%, quase o dobro da média nacional, de 9,7%.

A assessoria diz que o objetivo do trabalho, que é uma seqüência de estudos iniciados pelo professor Waldir Quadros, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é oferecer à classe empresarial, entidades de relações trabalhistas e até mesmo ao governo elementos para reflexão sobre os mecanismos que impedem a evolução do jovem e sua entrada no mercado de trabalho.

No que se refere ao tipo de atividade desenvolvida pelos jovens ocupados, de uma forma geral, observou-se uma forte predominância das atividades relacionadas a comércio e serviços (51% dos jovens de 15 a 24 anos estavam ocupados nessas atividades).

O estudo está embasado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra (PNAD) de 1993 a 2003. Uma de suas importantes conclusões discorre sobre o papel fundamental da educação, ou seja, o acesso e a permanência dos jovens na escola.

Rotatividade

A alta taxa de desemprego registrada entre os jovens também está relacionada à rotatividade. A avaliação é da economista Priscilla Matias Flori, cujo dissertação de mestrado, intitulado “Desemprego de jovens: um estudo sobre a dinâmica do mercado de trabalho juvenil brasileiro”, analisou a problemática.

“Estudei os motivos de a taxa de desemprego de jovens ser tão alta em relação aos trabalhadores mais velhos. Em alguns anos, chegou a ser três vezes maior. Esse problema ocorre no mundo inteiro. À exceção do Brasil, esse tema é muito debatido”, diz.

Flori afirma que a alta rotatividade dos jovens no mercado de trabalho ocorre devido a dois fatores: demanda e oferta de trabalho. “Do lado da oferta, o que pode estar ocorrendo é que os jovens estão querendo migrar de empregos para experimentar várias áreas até encontrar o emprego certo. Do lado da demanda, uma das possíveis causas da rotatividade é que a falta de preparo faz com que os empregadores não os utilizem ou subutilizem, preferindo trabalhadores mais velhos por somarem experiência e hábitos de trabalho mais sedimentados”, explica.

Na avaliação da economista, o governo precisa desenhar políticas apoiadas em estudos para identificar as demandas do setor. “O segmento empresarial deve implantar programas de treinamento e capacitação dentro da própria empresa. Somente com investimentos essa situação vai se reverter”, observa.

Almoço e livros

Com um olho no garfo e outro no caderno, os jovens que estudam no período noturno e trabalham durante o dia se esforçam para compensar a falta de tempo durante a semana para reforçar o aprendizado.

Bruno Florentino de Matos, 18 anos, aluno do primeiro ano da faculdade de direito, trabalha como auxiliar administrativo das 8h às 17h30. “Tenho pouco tempo para estudar. Durante o almoço, consigo olhar o caderno. Mas acho pouco. A saída é chegar em casa, depois da faculdade, e continuar estudando”, conta. “Tenho que abdicar de muitas coisas nos finais de semana. Fico estudando e dificilmente vou para a balada.”

A história se repete com o auxiliar de serviços gerais Éder Evandro da Silva, 19 anos. Ele, porém, desistiu de continuar os estudos porque estava com dificuldades para pagar uma escola particular.

Sua irmã, Caterine de Mattos, balconista de farmácia, vence as dificuldades por persistência. “Faço o cursinho e trabalho até as 16h30. Quando necessito, abro o caderno e estudo no balcão mesmo. Também aproveito os finais de semana”, relata.

Mesmo sem emprego, a promotora de vendas Celma Torres, 27 anos, não desistiu de estudar. “Não é fácil trabalhar e estudar ao mesmo tempo. É cansativo.”

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