O taxista Euclides Serigatto, 73 anos, está há quase 40 anos instalado no mesmo ponto de táxi, na praça Washington Luiz - que abriga a igreja de Nossa Senhora Aparecida -, e não sabia que justamente ali começou a surgir a cidade de Bauru. Pior que isso, Serigatto, como muitos bauruenses, imaginava equivocadamente que a cidade havia “nascido” em outro local (a Baixada do Silvino).
A culpa por esse vacilo com o passado da cidade, logicamente, não é do “seo” Euclides, e sim de uma carência de identificações (através de placas informativas) e o descuido com a conservação e/ou restauração de marcos e imóveis históricos.
Parte deste desleixo começou a ser combatido com a criação, em 1992, do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac), órgão encarregado de gerenciar a questão da preservação histórica através de processos de tombamentos.
Em outra frente, historiadores e, principalmente, memorialistas, guardam em arquivos vários documentos e fotos do nosso passado.
O JC nos Bairros percorreu uma parte do trajeto por onde Bauru se desenvolveu e encontrou pontos marcantes que, por uma série de motivos, ficam “invisíveis” aos olhos da população que por eles transitam todos os dias.
A começar pelo próprio início de tudo, nas proximidades das quadras 5 e 6 da atual rua Araújo Leite. O memorialista Gabriel Ruiz Pelegrina, 73 anos, responsável pelo Museu Histórico da Universidade Coração (USC), é um espectador privilegiado do cenário onde nasceu Bauru, não só porque guarda e organiza documentos históricos, mas também porque mora no local.
Da calçada de sua casa, por exemplo, Pelegrina vislumbra a rua Araújo Leite. Ao descer a via em direção ao ribeirão Bauru, chega à praça Washington Luiz, local que no passado abrigou a capela de Nossa Senhora Aparecida, a segunda igreja a surgir na cidade, em 1898 - quatro anos antes aparecera a capela do Espírito Santo, onde hoje é a praça Rui Barbosa. Na praça Washington Luiz, Pelegrina lamenta o estado de degradação do busto de Azarias Leite, personalidade histórica que acabou morrendo numa emboscada, em 1910, a poucos metros dali - o local, também, não está identificado.
O memorialista explica que a região da rua Araújo Leite adquiriu a condição de “nascedouro” de Bauru porque, por volta de 1850, Felicíssimo Antônio Pereira abriu um “picadão” (espécie de atalho aberto no mato) que se estendia de Botucatu a Avanhandava, passando justamente onde hoje está a rua Araújo Leite.
Ali surgiram as primeiras residências e logo se desenvolveu um pequeno centro comercial, que só perdeu força no início do século 20 com o deslocamento do foco desenvolvimentista para a atual região central da cidade, no entorno da praça Rui Barbosa e das ruas Primeiro de Agosto e Batista de Carvalho.
A topografia também teria favorecido a região a se firmar como o início de um povoado. “Aqui (quadras 5 e 6 da Araújo) não alaga; as águas ou caem em direção ao ribeirão das Flores (atualmente canalizado sob a avenida Nações Unidas) ou no leito do rio Bauru”, descreve Pelegrina.
Surpreso ao ser informado sobre seu “privilegiado” local de trabalho, “seo” Euclides admite: “Só fiquei sabendo agora que a cidade nasceu aqui”. De agora em diante, o taxista poderá agregar como atração de suas corridas a função de guia turístico, informando aos seus passageiros que eles estão tomando um táxi onde a saga de Bauru, realmente, teve início.