De 1900 a 1975, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo. Mas de 1976 a 2002 muitas coisas mudaram. O Brasil, que tinha ocupado o primeiro lugar em ritmo de crescimento, caiu para a 50.ª posição e depois, num período curto de cinco a seis anos, levou outro tombo, despencando para a 93.ª posição. Erramos duas vezes: primeiro porque acreditamos que a boa situação continuaria a melhorar e depois porque não consideramos a possibilidade de haver a ruptura do processo que durou 75 anos, mas ela aconteceu. Já em 1776, Adam Smitt definiu que, para os países crescerem, é preciso paz, porque na guerra nada funciona; tributação leve, porque sempre que se arrecada demais aumenta o desperdício e a falta de eficiência do gasto do Estado; também preconizou que a Justiça precisa ser apenas razoável; e os mercados competitivos, senão o "tubarão engole o peixinho". Também ressaltou que especial atenção deveria ser dada à inovação, que traduziu por invenções e novas tecnologias. Os ensinamentos de Smith valem até hoje.
Pouco mais de 10 anos atrás, o Plano Real domou a inflação e entramos numa fase de estabilidade e de prosperidade, que se estendeu até 1997. Mas quebramos em decorrência da adoção de uma política destrutiva que combinou juros extorsivos e câmbio baixo. Entramos num ciclo de crises internas e, embalados por movimentos internacionais desfavoráveis, embarcamos num processo doloroso que se arrastou até 2003. Depois de longo período de crescimento nulo, tivemos um 2004 positivo apoiados pela expansão mundial, queda de juros e aumento do crédito. O emprego aumentou, as exportações cresceram mais que o mercado interno e o PIB ganhou robustez. Entramos numa fase de otimismo com a recuperação de políticas sadias pelo governo federal. Mas nos esquecemos que remédio bom é aquele aplicado em dose certa.
A retomada do crescimento da economia brasileira está centrada fortemente nas exportações. Em três anos, obtivemos um saldo comercial maior que US$ 70 bilhões. Parte desse resultado é creditado na conta dos déficits norte-americanos, que têm acelerado a demanda mundial, mas a melhor resposta veio do outro lado do planeta, com o dinamismo da economia chinesa. No ano passado, os preços das commodities estavam em alta, o câmbio era favorável para o exportador e os juros encolheram nos primeiros seis meses do ano. Acompanhando esse movimento, tivemos um importante aumento de crédito. Porém, os fundamentos mudaram. Os juros internos dispararam e o dólar despencou. Em função da vulnerabilidade financeira, o Brasil não receberá grandes investimentos diretos ao mesmo tempo que não está credenciado a buscar empréstimos no Exterior para aumentar o seu endividamento. A única fonte de moeda forte que nós temos é o nosso saldo comercial.
A demanda mundial está aos poucos se estabilizando. O câmbio fora do lugar é um crime que está sendo praticado contra o País. A dose do remédio, que foi aplicada no início desse governo, passou dos limites. Não podemos ser vítimas do sistema de meta de inflação, que é positivo desde que adotado dentro de certos parâmetros. Uma meta de 5,1% é uma ambição exagerada para o Brasil, que acabará levando o País para uma recessão de grandes proporções. Não podemos deixar nosso desenvolvimento refém desta determinação, ainda mais que ela é fruto da decisão de apenas três brasileiros, que, na prática, são apenas um. O Brasil precisa crescer para resgatar sua enorme dívida social. Não podemos assistir esse espetáculo de braços cruzados.
O autor, Cláudio Vaz, é o presidente do Ciesp