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Solidárias, vizinhas se doam como mães

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

É uma dupla missão que elas realizam com prazer e muito carinho. As mães solidárias são aquelas dispostas a abraçar a educação diária dos próprios filhos, em alguns casos até mesmo de netos, com sobra de espaço e tempo para abrigar a prole da vizinha que precisa trabalhar ou estudar na busca de dias melhores.

Elas são facilmente identificáveis e visíveis. Estão sempre sorrindo e de bem com a vida e até parece que nasceram com os corações abençoados, nos quais sempre cabe mais uma, ou talvez duas ou mais crianças que necessitam de atenção, enquanto suas mães buscam diariamente a proteção financeira necessária para lhes garantir o futuro.

Faça sol ou chuva, a dona de casa Michelle Cristina de Oliveira, 27 anos, mãe de cinco filhos, junta à sua prole outras seis crianças. Elas são filhas de Vanessa Fernandes Oliveira, 31 anos, vendedora ambulante, vizinha de Michelle.

Moradoras do Parque Roosevelt, uma ajuda a outra naquilo que pode para criar os filhos. Diariamente, Vanessa ganha as ruas do Centro da cidade para vender saquinhos de amendoim nos semáforos. Sem marido, é com a renda da venda do produto, cerca de R$ 200,00 por mês, que ela sustenta a prole.

Além dos seis filhos que deixa sob os cuidados da vizinha, com idades que variam de meses a 14 anos, a vendedora ambulante carrega mais dois que reforçam a oferta de amendoim aos motoristas que param seus carros diante do semáforo que regula o cruzamento das avenidas Nuno de Assis com Nações Unidas.

“Saio todos os dias por volta da 1 hora da tarde, depois que parte das crianças chega da escola. A partir daí, a responsabilidade é da Michelle”, conta Vanessa, completando que a colaboração da vizinha é a única alternativa que encontrou para ganhar o sustento da família.

O afeto e o carinho com que Michelle cuida dos filhos de sua vizinha compensam a carência financeira que atropela essas mulheres. “O que eu dou para os meus, dou para eles também”, faz questão de comentar. “Não vejo diferença entre os meus filhos e os dela”, arremata.

Seu envolvimento com as crianças faz com que seu dia seja uma diversão. “Cuido delas com prazer. É lógico que uma vez ou outra preciso chamar a atenção. Mas não sou de bater. Acho que uma boa conversa resolve tudo”, ensina.

O cenário muda de lugar. Algumas centenas de quadras separam o Parque Roosevelt da Vila Independência, mas o coração de mãe solidária permanece o mesmo, inalterado, pronto para receber em casa mais uma criança que será tratada como se fosse seu filho.

Sorte da estudante Karienne Fernanda Dias da Silva, 28 anos, mãe de Beatriz, 6 anos. Elas são vizinhas de Clarice Portoni Silva, uma senhora de 46 anos de idade que viu Beatriz nascer. A partir daí, a relação entre as duas foi construída mês a mês.

Karienne faz curso universitário no período noturno e confia Beatriz aos cuidados de Clarice. “A Bia é como se fosse a primeira neta”, confessa Clarice. Karienne perdeu a mãe ainda jovem e enxergou na vizinha o carinho e o afeto de uma avó.

Acertou. “Ela é da família. Tenho três filhos, todos já adultos. E eles oferecem toda a atenção para a Bia”, conta Clarice.

A mãe da menina já se acostumou ao tratamento carinhoso da vizinha com a filha que permite até mesmo que ela durma por lá. “Ela (Clarice) vive dizendo que se a gente se mudar daqui vai ficar doente sem a Beatriz”, revela Karienne.

Sonho realizado

A realização e a satisfação de ser mãe nem sempre conseguem ser alcançadas. Mas nem por isso é motivo de frustração. É o caso de Rosângela Aparecida de Paula, 48 anos, solteira. Ela diz que desde pequena foi criada para se casar e constituir família.

O desejo, porém, não vingou. Mas Rosângela se sente realizada por ter ajudado a criar três sobrinhos, hoje com 19, 17 e 12 anos. “Desde muito cedo, aos 12 anos de idade, sempre gostei muito de criança. Com essa idade, já levava um primo da Vila Cardia até o antigo Hospital Salles Gomes para a minha tia dar de mamar a ele”, lembra.

Embora não tenha procriado biologicamente, ela afirma que se sente feliz por ter acompanhado de perto, desde o nascimento, a criação dos três sobrinhos. “De certa forma, me sinto realizada. Tudo o que passei deu para imaginar o que é ser mãe”. Com certeza, a imaginação faz parte da lista que compõe o significado da palavra mãe.

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