Psicólogos e profissionais dos mais diversos segmentos interessados na discussão da alma humana vão participar nos dias 1 e 2 de julho da 3.ª Jornada de Psicologia Junguiana de Bauru e Região. A jornada, que terá como tema neste ano “Jung e os labirintos da alma - individuação em tempos de criseâ€, terá como evento paralelo a 8.ª Mostra de Pesquisas do Curso de Técnicas Terapêuticas Junguianas. A promoção é do Instituto de Psicologia Junguiana de Bauru e Região.
A jornada contará com debates de temas de pesquisas e monografias, além de palestras e vivências. O evento buscará a discussão do homem moderno e suas manias. “Vivemos numa fase, de certo modo, que podemos considerar de fase maníaca. Há uma exigência muito grande, explícita e implícita, de uma euforia em todas as áreas e em tudo o que se fazâ€, analisa a jornalista Cristina Rodrigues Franciscato, uma das supervisoras do comitê ético e científico do evento.
Na opinião dela, essa mania gera como subproduto um nível muito grande de ansiedade. “Se você não estiver sempre up, deve ter alguma coisa errada. E não é fácil para qualquer pessoa manter esse nível de expectativa estando sempre numa condição maníacaâ€, observa.
Nessa situação enquadra-se o perfil de pessoas que se obrigam a estar sempre muito produtivas, felizes, plugadas em tudo nas 24 horas do dia. Com isso, ficam sem espaço para um dia terem o direito de se sentir um pouco mais tristes, menos eufóricas, porque isso será detectado como problemático.
“Um nível abaixo de euforia e produção já é detectado como algo de errado. Isso gera ansiedade quando você se vê obrigado a manter esse padrão de viver e de comportamento. A nossa grande pergunta é: qual o espaço para a interioridade que pode existir num momento como esse?â€, questiona Franciscato.
Para a psicóloga Regina Paganini Lourenço Furigo, presidente do comitê ético científico do evento, as necessidades da alma humana devem ser encaradas como naturais e possíveis. â€œÉ preciso chamar a atenção das pessoas na busca da consciência sobre essa automatização. As pessoas estão tão envolvidas que nem sempre percebem. Acabam adoecendoâ€, analisa Furigo.
Para ela, a plenitude da conquista e da vivência dos bens materiais nem sempre levam as pessoas à felicidade. “E elas questionam por quê. Muitas vezes por estarem reproduzindo um padrão automático que as levam a ser tão descontentesâ€, observa.
A professora Cristina Rodrigues Franciscato, doutoranda em Língua e Literatura Grega Antiga pela Universidade de São Paulo (USP), explica que o universo mítico tem ligações com o mundo da psicologia.
“Embora nós tenhamos mudado muito como civilização, as questões básicas da alma humana não mudaram tanto com relação à mitologia grega. O pensamento mítico guarda de forma arquetípica tudo aquilo que é fundamental da alma humanaâ€, comenta.
Franciscato explica que quando se estuda um determinado mito, não está se avaliando “uma historinha†que fazia parte do imaginário grego numa determinada época. “Na verdade, estamos olhando para questões da alma humana que foram registradas de modo simbólico dentro de um sistema de pensamentoâ€.
Na avaliação dela, ao se estudar uma tragédia grega percebe-se que os dramas focalizados por Eurípedes, Sófocles, dentre outros, e que mostram “as dores da almaâ€, são tão atuais para o século 5 antes de Cristo como para o século 21. “Nós, como alma, mudamos muito poucoâ€.
Serviço
Mais informações sobre o evento podem ser obtidas pelo telefone (14) 3223-2326, das 13h às 19h, pelo email junguianos@yahoo.com.br ou na avenida Rodrigues Alves, 8-4, sala 404, Bauru
Carl Gustav Jung nasceu na Suíça, na virada do século 19. Foi, sem dúvida, um dos maiores gênios do século 20, um gigante do conhecimento universal. Psiquiatra por formação acadêmica, foi profundo humanista e dedicou-se enfaticamente ao estudo da psicoterapia. Sua grande contribuição para a ciência foi a criação de uma escola psicoterápica denominada Psicologia Analítica ou Psicologia Profunda.
Historicamente esta escola iniciou-se junto à psicanálise, mas não demorou muito para que Jung percebesse que seu caminho divergia do movimento psicanalítico. Jung foi um pesquisador de ampla visão. Sua aproximação com físicos eminentes da época, como Einstein, Pauli e tantos outros da efervescente Zurique do início do século 20, estabeleceu um extenso diálogo entre física e psicologia.
Dele surgiram novos conceitos como, por exemplo, a questão da sincronicidade, termo criado por Jung para a ocorrência simultânea de dois ou mais eventos ligados entre si pelo significado, não pela causalidade. Apesar de todo critério científico a que submeteu sua escola, priorizou sempre as questões individuais e a busca de significados para a existência humana.
A grande proposta de Jung é que a vida tem significado. Seu pensamento é extremamente atual nesta virada de século. As questões para as quais chamou enfaticamente a atenção encontram-se mais presentes e necessárias do que nunca. Jung desenvolveu conceitos ainda em elaboração como os de inconsciente coletivo, arquétipos e processo de individuação.
A vida é um constante desenvolver de possibilidades e um resgatar de potencialidades negligenciadas. O trabalho analítico consiste na conquista da integridade do “homem comumâ€, ajudando-o a enfrentar as questões do seu tempo. Onde devemos situar Jung dentro das idéias contemporâneas? Ao dar tão grande importância aos sonhos, aos mitos, à alquimia, será ele um sobrevivente de épocas ultrapassadas? Ou, ao contrário, um homem que, extremamente contemporâneo, desvela possibilidades e antecipa o homem futuro? (Da Redação)