Cultura

Na contramão

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Quem os encontra tocando em bares, casas noturnas e restaurantes nem sempre imagina que a rotina dos músicos da noite de Bauru tem certas peculiaridades - boas e ruins. Eles dormem ao amanhecer, acordam na hora do almoço, jantam de madrugada e têm de se adaptar a horários totalmente diferentes do convencional.

“É totalmente louco. Às vezes, você tem de dobrar a jornada e ficar 48 horas sem dormir - quando você acaba de tocar de madrugada e já tem um coquetel ou almoço para fazer, por exemplo”, explica o guitarrista e vocalista Bitenka, que toca em Bauru e cidades da região.

“Você precisa se programar para fazer coisas como ir ao banco, se não você não consegue. Ao mercado, por exemplo, eu só vou de madrugada”, acrescenta o músico.

Outra dificuldade é participar de festas familiares ou reuniões de amigos, já que tais eventos invariavelmente são realizados nos mesmos horários em que eles tocam: à noite, em especial aos fins de semana.

“A pessoa convida você para almoçar e já é complicado chegar no horário. Levar filho na escola é mais ainda. Tem de se programar. Se você entra de cabeça na profissão, não tem como conciliar e ter horários normais”, salienta Bitenka.

O músico bauruense Zépaulo conta que perde todos os compromissos familiares e de amigos. “Churrascos ou qualquer coisa que tenha, você não vai porque essas coisas acontecem mais de sexta e sábado. Eu não participei de nenhuma festa da família da minha mulher no ano passado. Eu acho ruim, mas ela acha pior porque é ruim não ter companhia”, avalia.

Músico há 14 anos, ele revela que dorme ao amanhecer há muitos anos e acorda entre 11h e 13h. Agora que ele se dedica somente aos shows e não mais a dar aulas de música, Zépaulo reserva as tardes para se ocupar de sua vida pessoal e para estudar seus instrumentos (violão, cítara, saxofone).

Vida boa?

Bitenka destaca que trabalhar como músico não consiste apenas em pegar seu instrumento à noite e sair para tocar. Nos “bastidores”, eles precisam dedicar um tempo à escolha e renovação do repertório, ao estudo do instrumento e à preparação das apresentações.

“Você trabalha muito e as pessoas só te vêem quando você está tocando. À tarde, você tem que se preparar para o show, ir à Ordem dos Músicos (do Brasil), passar o som, voltar para casa, se aprontar, etc. E às vezes eu tenho três compromissos (shows) no mesmo dia. É muito corrido, mas mesmo assim muita gente não encara como trabalho”, frisa.

A cantora Lizeth, que faz dupla com seu companheiro Wal, também abriu mão de algumas coisas em sua vida em nome da profissão. Uma delas é ter filhos. “Durante alguns anos, ficamos pensando na possibilidade, mas chegou uma hora em que decidimos que, se era para continuar vivendo do jeito que a gente vive, não daria. Teríamos que mudar totalmente nossas vidas e não queremos isso”, diz.

Ela também deixou de se preocupar com horários e começou a fazer as coisas nos momentos em que é possível. “A gente pensava em tentar dormir mais cedo e acordar mais cedo, mas agora fazemos isso na hora em que podemos e precisamos. Eu como quando eu tenho fome, por exemplo. Não dá para ter uma vida regrada. Não temos condições”, expõe.

Outra mudança provocada pela profissão foi a troca de carro para carregar os equipamentos de som - mesa de som, caixas, potência, equalizador, microfones, cabos, etc. “Nem todas as casas têm os equipamentos para tocar. Isso é parte da rotina”, conta.

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Profissão paralela

Talvez ainda mais curiosa seja a vida dos músicos que tocam em casas noturnas e durante o dia têm uma profissão paralela. É o caso da cantora Lizeth, da dupla Lizeth e Wal, e de Darcy Neto, que tem uma dupla com a vocalista Samira.

Durante o dia (e às vezes também à noite), Lizeth se dedica ao estúdio que tem em sociedade com Wal. A atividade também não tem horários regrados, já que eles dependem do tempo disponível de cada banda que aluga o espaço para gravar.

Já Darcy exerce uma profissão bem diferente do seu trabalho como tecladista - ele é dentista durante o dia. Desde que se formou em odontologia, há três anos, seus dias se dividem da seguinte forma: de manhã (a partir das 7h30), ele trabalha no consultório, à tarde, faz faculdade de música na Universidade do Sagrado Coração (USC) e à noite toca em bares, restaurantes e choperias. “Terminamos em torno de 23h30 durante a semana e 1h aos sábados. Tenho o restante da noite para descansar e no dia seguinte enfrentar uma nova jornada”, diz.

Darcy mal pára em casa. Principalmente quando recebe um paciente que não estava agendado ou quando, por algum motivo, sai mais tarde da faculdade. Nesses casos, o tempo de passar em casa, colocar os equipamentos no carro e se arrumar para sair é bem limitado. “Tem dia que a coisa pega fogo. É o maior aperto, mas no fim dá tudo certo”, expõe.

O tecladista considera as duas atividades da mesma forma e não tem planos de abandonar uma delas para se dedicar integralmente à outra. “Eu gosto das duas da mesma forma. Gosto muito de odontologia; acho uma profissão muito interessante. Na música é a mesma coisa”, salienta.

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