Regional

Idoso causa 1º homicídio de Reginópolis

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Numa circunstância incomum, a pacata cidade de Regionópolis (a 60 quilômetros a noroeste de Bauru), com cerca de 5 mil habitantes, registrou ontem o primeiro homicídio em 56 anos de emancipação. O fato, ocorrido num asilo, envolve dois idosos, sendo que um deles, com 76 anos, morreu ao levar uma facada no abdome. O contexto excepcional provocou a comoção dos moradores do município.

A maioria deles custou a acreditar no caso, cujo estopim foi a disputa por um cigarro. De acordo com o delegado titular da delegacia de Reginópolis, Adriano Joaquim Guedes Cres, a vítima, Mário Sartori, teria tentado pegar o cigarro entregue a uma asilada - surda, muda e com problemas mentais. A iniciativa, no entanto, teria sido desaprovada por Arlindo Lopes da Conceição, 82 anos, que tomou as dores da senhora, apoderou-se de uma faca e a desferiu contra Sartori.

Ferido no abdome, ele caiu de uma escada de três degraus e bateu a cabeça numa laje de concreto, situada a menos de quatro metros da capela da instituição, denominada Sociedade de Proteção à Velhice Lar Padre Jeremias. O asilo fica a cerca de 100 metros da delegacia. “Acionaram a Polícia Militar e a ambulância. A vítima foi transferida (do centro de saúde de Regionópolis) para o hospital de Pirajuí, mas morreu”, explica o delegado.

De acordo com informações extra-oficiais, o óbito teria sido constatado antes que Sartori chegasse a ser atendido na cidade vizinha. Simultaneamente, Conceição foi levado à delegacia, assim como a faca, apreendida pela polícia. “Foi lavrado auto de prisão em flagrante delito pela prática de homicídio doloso. Ele vai para a cadeia pública de Avaí”, acrescenta Cres.

A possibilidade de Conceição responder o crime em liberdade, em função da idade, será avaliada pelo juiz no momento em que a sentença for aplicada, informa Edson Reis, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), subseção de Bauru. Ele esclarece que, dependendo das condições de saúde do idoso, a prisão também pode ser relaxada até a data do julgamento.

Ontem, a reportagem tentou ouvir Conceição sobre o caso, mas como estava visivelmente abalado e sofre de grande déficit de audição, a comunicação não foi possível. Ele apenas informou que Mário havia sido ferido. Até o momento da entrevista, ele não sabia que o companheiro de asilo havia falecido. Conceição já cumpriu pena por homicídio há cerca de 50 anos, acrescenta o delegado.

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Temperamentos

Embora não haja unanimidade, há quem diga que o temperamento da vítima, Mário Sartori, 76 anos, era difícil. Por outro lado, o agressor, Arlindo Lopes da Conceição, 82 anos, é conhecido por levar a vida de modo reservado. As características diversas, no entanto, não pareciam passíveis de provocar combustão nem em situações limites.

“Ele é muito bom, não dá trabalho. Calmo, pacato. Quando ia na cidade, trazia balas para todos”, conta uma funcionária da Sociedade de Proteção à Velhice Lar Padre Jeremias ao se referir a Conceição. Ela, junto com a zeladora Ana Donizete Oliveira, foram as primeiras a tomar conhecimento do ocorrido. Quando a zeladora soube que Mário estava caído, imaginou uma crise de diabetes.

“Eu vi o sangue. Quando ele (Conceição) tirou a faca (do abdome de Mário), eu disse: vamos conversar. Parece que seu Arlindo estava meio fora. Até lavou a faca”, conta Oliveira. O choque enfrentado por ela parece não ter se irradiado pelos internados do asilo. Para os idosos Antonio Benedito e Miguel Esteves, por exemplo, os dois eram amigos e nenhum é melhor que o outro, mesmo após o ocorrido.

No entanto, funcionários da Sociedade de Proteção à Velhice Lar Padre Jeremias informaram que Sartori chegava a desferir alguns tapas de natureza leve contra a senhora que transformou-se em pivô do desentendimento. A vítima também foi apontada por um vizinho do asilo como “mandão”. Porém, as características contradizem o posicionamento da família, para quem ele “não tinha boca para nada”.

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