A saliva é o mais nova aliada da ciência no estudo e diagnóstico da tuberculose no País. É o que contou ao JC o professor e doutor da Universidade de São Paulo (USP), Manoel Armando Azevedo dos Santos, especialista em microbiologia e pesquisador em tuberculose.
O professor esteve em Bauru para proferir palestra sobre a doença nas Faculdades Integradas de Bauru (FIB) e comentou, com impaciência, que mesmo o público universitário desconhece as principais informações sobre a tuberculose no dia-a-dia.
O microbiologista apontou que apenas três mililitros de saliva coletados para envio a laboratório podem ajudar, em poucos anos, a ampliar os estudos e diagnóstico da doença no Brasil. O professor também mencionou preocupação com a incidência cada vez mais crescente da doença após estresse por tratamentos médicos, como rádio e quimioterapia, nas quais o estado imunológico em queda potencializa o aparecimento da tuberculose.
Veja os principais pontos da entrevista:
Jornal da Cidade - Qual a realidade da tuberculose no País hoje?
Manoel Armando Azevedo dos Santos - A incidência de tuberculose no mundo e no Brasil exige muitos cuidados. Nos países desenvolvidos, a incidência aumentou muito por causa da cruzada da aids. Com o advento da doença tivemos aumento rápido e crescente dos pacientes imunosuprimidos. Oportunismo da tuberculose em aparecer como doença não gerou epidemia, não foi um surto. O aumento no número de óbitos por tuberculose foi nos países desenvolvidos. No Brasil, como nos outros países subdesenvolvidos, esse número está quase no mesmo patamar, porque a tuberculose na América do Sul e África já é um problema conhecido há mais tempo. Um pesquisador da Bahia, Antonio José Silveira, um dos baluartes da tuberculose no Brasil, classificou a doença e tem um livro que trata bem o assunto como “Tuberculose, doença esquecidaâ€.
JC - Por que doença esquecida?
Santos - Porque ela passou por um período muito grande de esquecimento em função da manutenção de quase o mesmo número de casos nos últimos anos. O número de infectados é quase o mesmo hoje, comparado com muitos anos atrás. A incidência da doença no Brasil, porém, é preocupante. Não é alarmante, mas é preocupante. O governo tem colaborado com a distribuição de medicamentos gratuitos, com as agências do governo fazendo diagnóstico gratuito. O que falta ainda é a mensagem sobre a doença chegar aos brasileiros sobre os perigos, a transmissibilidade, como evitar aglomeração, como evitar confinamento de pessoas, etc. Na parte de divulgação, nós estamos pecando. Nos países desenvolvidos temos registros de 382 mil infectados. O Brasil registra 58 casos para cada 100 mil habitantes. São 6.000 óbitos por ano. Se a propaganda da tuberculose tivesse tido a mesma eficiência e insistência com que ocorreu com a campanha da aids, com certeza a doença estaria muito mais controlada. O que temos que fazer é como fizemos aqui na FIB, em uma sala com 60 pessoas, onde informamos que a tuberculose não é transmitida pelo beijo e muita gente ainda se surpreendeu com isso. A tuberculose é transmitida pela inalação do microorganismo, não é pela roupa usada. Estamos em Bauru, no Estado mais avançado da federação, em uma classe de universidade e muita gente não sabia como a tuberculose era transmitida.
JC - E qual a principal preocupação em termos de saúde pública no combate à doença hoje?
Santos - O problema que nos chama a atenção da tuberculose hoje, muito maior do que a infecção ativa, por inalação do microorganismo, é a inativa. 95% dos brasileiros têm o complexo primário da tuberculose, onde a bactéria começa a fabricar proteínas para defender o DNA e começa a voltar para o estágio patogênico. Pacientes que recebem tratamento de quimioterapia, radioterapia e pós-cirurgia de câncer, por exemplo, tem alto estresse. E é nessa fase que o complexo primário mais aparece hoje, com 50% ou mais dos pacientes evoluindo para quadro de tuberculose. O complexo primário da tuberculose pode ser reativado por estresse radioterápico, quimioterápico. Um estresse hormonal, na menopausa, também pode gerar um caso de tuberculose. O organismo entra em estado de queda imunológica em alto grau e reativa a tuberculose latente. Esse é um problema que nos chama a atenção muito mais do que a infecção ativa hoje.
JC - E essa preocupação aumenta com o envelhecimento da população?
Santos - Sim, o povo está vivendo mais e com isso a tuberculose passa a aparecer mais, no idoso. São problemas crescentes. A vacina contra a tuberculose também é um desafio muito grande, porque a bactéria sofre várias mutações durante a escala da infecção. Essas respostas ainda estão para serem respondidas pela ciência em microbiologia. Nós enfrentamos esses problemas hoje em matéria de saúde pública. Nós também precisamos desenvolver pesquisas para saber quantos tipos genéticos de microbactérias da tuberculose existem no Brasil. Nosso grupo, da USP, está estudando esse tipo de tuberculose e esses segredos. Também precisamos ainda saber quanto tempo o microorganismo fica vivo no ambiente, ou em material clínico. Se um doente espirrar em um ambiente fechado, nós queremos saber em quanto ele lota o ambiente com aquele microorganismo, tal qual como acontece no presídio, lar e asilos, onde há grande incidência. Outro problema é que a imunologia atende com a vacina até a fase de jovem. Mas depois não se costuma tomar mais a vacina e na fase senil a maioria dos brasileiros está com a imunologia descoberta. Isso é grave.
JC - Está em avanço o uso da saliva para análise da tuberculose?
Santos - Isso nós temos feito em laboratório, na área de odontologia. Estamos em duas grandes áreas, na medicina, com o estudo da análise do microorganismo, o que auxilia muito no diagnóstico da doença, na odontologia, onde estamos caminhando firmes para eleger a saliva como um material clínico para ser usado no diagnóstico da tuberculose. É muito difícil as mulheres urbanas escarrarem, mesmo tendo expectoração, por exemplo. Na zona rural, a maioria das mulheres escarram, mas não tenho a resposta além da questão cultural. Então estamos procurando usar a saliva. Se ela conseguir cuspir três mililitros de saliva, nós estamos estudando e estamos tendo sucesso na utilização da saliva como diagnóstico.
JC - Em que setores há avanços no estudo da microbiologia?
Santos - O plástico biodegradável é produzido por uma levedura. Por outro lado, outra levedura modificada produzia a insulina. Tudo isso é motivo de atrativo para o setor privado. A Copersucar agora começou a produzir o plástico biodegradável. A insulina por levedura modificada na microbiologia também entra em estágio de produção. É a microbiologia entrando no setor industrial. Há produção de insumo de ração com uso da microbiologia hoje. As pesquisas em nosso departamento da USP vão por aí e a propriedade industrial no Brasil está se acertando, estamos correndo atrás de patentes e regularização, com apoio total do governo através das agências de pesquisa.