Cultura

Sobre mundos: Cuide-se bem

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Pai e filho caminhavam pelas montanhas. De repente, o menino tropeçou em uma pedra e, caindo, soltou um grito espontaneamente. Para sua surpresa, o garoto escutou uma voz que repetia seu grito em algum lugar da montanha. Curioso, o menino perguntou: “Quem é você?” A voz então respondeu: “Você? Você?” Contrariado, o menino gritou novamente: “Não se esconda e mostre sua cara!” “A cara! Cara!”, escutou admirado o garoto.

O pai, sorrindo, disse ao filho: “Preste atenção...” E gritou: “Você é um campeão!” A voz respondeu: “É campeão!” O menino ficou surpreso, não compreendendo nada. O pai, então, explicou: “As pessoas chamam a isso de ‘eco’. Porém, é mais que isso. Na realidade, isso é a própria vida. Ela dá regresso a tudo o que você disser ou fazer. Nossa vida é um reflexo de nossas ações. Se você quer mais amor no mundo, cria mais amor em seu coração. Se você quer mais capacidade em sua equipe, desenvolva sua capacidade. Sua vida não é uma coincidência, e sim uma conseqüência de você mesmo e para você mesmo!”

Principalmente nos séculos 1 e 2 da era cristã, filósofos gregos e romanos desenvolveram todo seu pensamento para o que eles chamavam de “cuidado de si”. A necessidade de desenvolver uma “arte de viver bem” possuía como finalidade não somente o próprio eu como também a cidade, ou seja, todo o universo humano. “O segredo da vida está na arte” (Oscar Wilde).

Ocupar-se consigo mesmo tinha por finalidade última o espaço comum para todas as pessoas, a cidade, mas tinha como início a própria pessoa, o sujeito. Em outras palavras, o objeto do cuidado era o eu, mas a finalidade era a cidade, onde o eu está presente a título apenas de elemento. Nesta época, a cidade mediatizava a relação de si para consigo. Nesta “arte de viver bem” aprofundada por filósofos como Platão entende-se “cuidar-se” como uma série de atividades concretas.

O primeiro passo é voltar-se para si, o famoso “convertere”, a pouco vivenciada “metánoia”. Ninguém consegue desenvolver uma arte de bem viver e, portanto, uma satisfação na vida, se não se torna para si próprio um verdadeiro objeto de análise. O ato de conhecimento, da atenção, do olhar, a percepção que se pode ter em relação a si mesmo, estar atento a si e constantemente se autodescobrir é o início de um caminho de equilíbrio e possível satisfação.

Viver intensamente significa conhecer-se melhor e, portanto, procurar reparar em si mesmo, analisando como se está vivendo, qual a origem dos sofrimentos e das alegrias. O segundo passo é adquirir um hábito que parece ser óbvio, mas na verdade nem sempre é: o hábito de tratar-se, cuidar de si. Ao me conhecer melhor, devo desenvolver minhas potencialidades, como também trabalhar os aspectos que são para mim e para os outros inconvenientes e não desejáveis.

Juntamente com o tratar de si está o reivindicar para si mesmo. Fazer valer os seus direitos e buscar conquistar o que realmente nos leva à satisfação de viver são passos concretos e fundamentais que dão o verdadeiro sentido à nossa existência. Outro aspecto do “cuidar-se de si” é a autovalorização. A esta pertence a consciência de que somos algo de sagrado, uma obra divina e, portanto, cada ser humano deve honrar-se, respeitar-se e se fazer respeitar. “Não cometer nenhum ato vergonhoso nem na presença de outros nem em segredo. A tua primeira lei deve ser o respeito a ti mesmo” (Pitágoras). Por fim, um aspecto fundamental da arte do bem viver é o domínio e soberania, ser mestre de si. As experiências boas e ruins devem nos ensinar a ter o controle sobre nós mesmos. Controle aqui significa domínio, saber utilizar suas próprias forças e saborear seu próprio ser com equilíbrio. “A felicidade não depende do que nos falta, mas do bom uso que fazemos do que temos” (Thomas Hardy).

“Cuidar-se de si” significava para os filósofos gregos e romanos filosofar. A prática de filosofar consistia em cuidar da alma, da “energéia”, da anima, da vitalidade de viver. O objetivo de filosofar não era um conhecimento erudito, mas a situação concreta de bem-estar. Pelo menos depois de Platão, a filosofia, ou seja, a prática de auto-análise e o cuidado de si mesmo deveria existir em todos os momentos da vida. A filosofia para os jovens consistia em uma preparação e para os idosos uma forma de rejuvenescer, ou seja, de desprender-se do tempo. “Quando se é jovem, não se deve hesitar em filosofar e, quando se é velho, não se deve deixar de filosofar. Nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para ter cuidados com a própria alma. Quem disser que não é ainda ou não é mais tempo de filosofar assemelha-se a quem diz que não é ainda ou não é mais tempo de.

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