A mangueira de gás, instalada atrás do fogão, fura por causa do calor provocado pelo forno. O fogo está alto e já se aproxima do botijão. A situação, capaz de botar medo em moço valente, não amedronta Izabel Medina, 75 anos. Ela é capaz de desligar sozinha a válvula de gás, apesar das chamas. Destemida, a coragem dela foi inflamada ontem, em mais uma aula promovida pelo Corpo de Bombeiros aos estudantes da Universidade Aberta da Terceira Idade, ligada à Universidade do Sagrado Coração (USC).
“Não sou de correr (diante do perigo), vou lá resolver. Ainda mais agora que recebi instrução e estou segura”, diz Izabel. Ontem, ela até utilizou as vestimentas da corporação para se confrontar com as labaredas, ao participar do curso “Prevenção não tem idade”.
A vivacidade de Izabel, que gostou de cobrir-se com capacete, bota e capa, tornou-se sinônimo de “trabalho cumprido” para o Corpo de Bombeiros, responsável pelo projeto, cujo objetivo é o de garantir independência e autonomia aos idosos, muitas vezes isolados.
“Aqui, o público é diferente, mais seleto. Mas em alguns casos (em comunidades pobres ou desinformadas), eles acham que não têm mais valor, que não conseguem mais fazer as coisas. Mas têm capacidade. Queremos trazer as pessoas à cidadania. Às vezes, o casal mora sozinho e um deles sofre engasgo, enfarto. Ficam como reféns. Agora um pode ajudar o outro (até que o resgate chegue)”, explica o comandante interino do 12.º Grupamento dos Bombeiros, major José Guerxis Aguiar.
Faixa etária
De acordo com ele, a incidência de ocorrências envolvendo idosos é inexpressiva dentre a demanda total da corporação. “O curso não tem relação com faixa etária, mas pode acontecer (algum incidente) com eles também. Esperamos expandir (as aulas na USC e em outras instituições da cidade)”, afirma o comandante. Quando o curso teve início, neste semestre, apenas sete alunos da universidade se inscreveram.
Atualmente, são 25 recebendo instruções de primeiro socorros e prevenção de acidentes domésticos. “Superou a nossa expectativa. É um resgate muito importante. O curso deveria até ser estendido para funcionários da USC”, afirma a psicóloga e coordenadora da Universidade Aberta da Terceira Idade, Gislaine Aude Fantini.
“Quando a gente vê fogo perto de botijão pensa que vai explodir tudo e sai correndo. Hoje aprendemos outra coisa. Estou adorando desde o primeiro dia”, comenta Maria Aparecida Vasconcellos, 66 anos, também freqüentadora das aulas. Já a colega dela Luiza Rodrigues, 70 anos, teria evitado o curso se soubesse de antemão que ele seria ministrado por oficiais. Hoje, “bate cartão”.
“Acho interessante (as aulas). Gostei da experiência (de utilizar as vestimentas). Só achei a roupa um pouco desconfortável”, acrescenta Maria Inês Conde, 53 anos. Por outro lado, é com bem-estar que o bombeiro Ernesto Villares transmite os ensinamentos ao grupo. “É muito gratificante. Uma injeção de ânimo”, conclui.