Política

Seqüestrador expõe perfil de Wanderico

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 2 min

“Uma figura mirrada, pequena, folclórica e especializada em questões religiosas”. Essa é a definição de Paulo de Tarso Wenceslau para o ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Wanderico de Arruda Moraes, que é devoto de Frei Galvão. Wenceslau foi um dos seqüestradores do embaixador norte-americano no Brasil, Charles Elbrick, em setembro de 1969, operação realizada no Rio de Janeiro.

Os militantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e do MR-8 negociaram com sucesso a liberdade de Elbrick na troca de 15 presos políticos que partiram para o exílio. “Ele (Wanderico) era o delegado especializado em questões religiosas. Uma de suas tarefas era fazer contato com padres. Investigava a subversão religiosa. Não chegava a ser um delegadão do tipo Fleury (Sérgio Paranhos Fleury)”, observa.

Wenceslau diz que o ex-delegado conhecia de maneira profunda as questões ideológicas vigentes na época. “Cruzei com o Wanderico no Dops por mais de uma ocasião. Mas não fui interrogado por ele”.

Os relatos sobre a figura do ex-delegado tornam-se mais apimentados quando envolvem familiares de vítimas detidas no Dops de São Paulo. O advogado Antonio Pedroso Júnior refere-se ao período da ditadura militar como uma “triste memória para a democracia brasileira”.

“Meu pai, Antonio Pedroso, Ramiro Pinto e João Batista Dias, o Pebá (pai do ex-secretário de Obras Edmilson Queiroz Dias), foram presos em Bauru em janeiro de 1969 e encaminhados para o Dops, em São Paulo. Quando ele foi libertado, no final desse mesmo mês, chegou em casa com a camisa respingada de sangue, embora não tivesse ferimentos expostos”, relata.

Pedroso Júnior conta outro caso no qual um garoto de 14 anos, filho de um preso, foi torturado na frente do pai para forçar a revelação de fatos que pudessem delatar os demais companheiros envolvidos em “situações subversivas”. “Tudo isso aconteceu quando Wanderico era delegado do Dops. Portanto, discordo quando o ex-delegado diz que os presos eram bem tratados”, afirma.

As memórias da prisão no Dops ainda estão frescas no cotidiano do advogado e ex-vereador Milton Dota, detido no congresso clandestino da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado em outubro de 1968, numa fazenda nas redondezas da cidade de Ibiúna (SP).

“Fizemos a plenária em cima de um barranco e bem na hora das discussões começamos a ouvir os primeiros tiros. Percebemos que tínhamos problemas. De repente os policiais chegaram ‘turbinados’. Achavam que nós estávamos armados e prontos para uma revolução”, relata.

Dota, militante da Ação Popular (AP), conta que os estudantes, após a voz de prisão, caminharam por vários quilômetros a pé. “A cada dez metros havia um policial com uma metralhadora. Fui parar numa cela fedentina do presídio Tiradentes. Depois fui transferido para o Dops e terminei no Carandiru, onde fiquei preso 39 dias. O relator do meu processo foi o general Ernesto Geisel, que virou presidente do País”, conta.

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